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Paulo Vanzolini e os bichos

TEXTO José Cláudio

05 de Maio de 2020

Besouros, de ilustração presente no livro 'Terra papagalorum' (2019)

Besouros, de ilustração presente no livro 'Terra papagalorum' (2019)

Ilustração GERDA BRENTANI/DIVULGAÇÃO

[conteúdo vinculado ao ensaio visual | ed. 233 | maio de 2020]

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Teve uma coisa
que nunca mudou durante nossa longa amizade: quando se falava de bicho, isto é, de zoologia, Paulo Vanzolini não admitia amadorismo. “Para a ciência, há dois porcos-do-mato.” E fim. Fim, não. “A carne dos dois é boa, depois de removida uma glândula de almíscar nas costas. Os antigos diziam que esses bichos tinham o umbigo no dorso.” Bicho, para ele, era coisa séria. Samba também. Ninguém lhe fosse com lorotas sobre um Nelson Sargento por exemplo, que era como se se referisse a um zoólogo, façamos a comparação. Eu, como não vou a fundo nem em samba e muito menos em zoologia, só ouvia.

Ou cantava, porque aprendera a tocar pandeiro na Bahia, frequentando capoeira com Carybé e Mário Cravo Jr. no barracão do Corta Braço, na Liberdade, tempo de Cabelo Bom, Traíra, Maré, Onça Preta, Pastinha, Mestre Waldemar e, mestre dos mestres do berimbau, Bugalho. De formas que cheguei afiado a São Paulo, pronto para me infiltrar nas rodas de samba do Clubinho, Clube dos Artistas e Amigos da Arte. Eu tinha credencial única que me dava ingresso a todos ambientes: a amizade do grande desenhista Arnaldo Pedroso d’Horta.

Aliás, a única referência que eu tinha de Vanzolini era a apresentação do álbum de desenhos de Arnaldo Esqueletos de Animais. Curiosamente, eu não sabia que aquele que se enturmava ali conosco era o autor das músicas que cantávamos e fui aprendendo enquanto batia pandeiro. Há poucos dias, vi na televisão, igualzinha a quando era assídua participante de nossas cantorias, justamente tocando violão e cantando Ronda de Paulo Vanzolini: Inezita Barroso.

Sobre Terra papagalorum não sei se já tinha ouvido falar. Acho que só por Cecília Scharlach, ou “escarlate” como dizia o português Fernando Lemos. Conheci a desenhista Gerda Brentani, sabe onde? Na casa de Arnaldo. O desenho dela, de altíssimo nível, se aproxima do de Arnaldo pela pureza de traço, por não querer ser senão desenho, pelo descompromisso com o realismo, ao mesmo tempo brincando com ele, a extrair de cada bicho o que servisse ao rigor do seu desenho, sem a menor concessão. Ela passou por todos os ismos sem se misturar com nenhum. A figura é pretexto e estímulo para refinadíssimas e infinitas combinações de meios-tons, desde o chapado a linhas de espessura microscópica a se confundirem com a textura do papel, mantendo sempre o rigor do bico-de-pena.

Vanzolini sabe tudo sobre todos os bichos, desde o menor inseto ao maior mamífero e são sempre informações surpreendentes. Sobre a ema: “Todo mundo sabe que a ema é o avestruz da América. Só os ornitologistas ainda duvidam”; sobre os besouros: “apenas os machos têm chifres”; “A pirarara é um dos grandes bagres da drenagem amazônica. Chega ao tamanho de um homem. Os índios usam sua banha para alimentar papagaios, que mudam de cor, ficando amarelinhos”.

Mas tem suas superstições. Na viagem ao Amazonas, saí daqui do Recife, o avião fez escala em Belém. Quando vi foi Vanzolini sentado junto de mim conferindo os bolsos do paletó, de onde tirou uma bonequinha de pano, olhou e botou de novo no bolso. Tinha sido de sua filha Maria Eugênia quando neném. “Deus protege os passos dos inocentes”, ele disse.

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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