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Curtas

Adoniran, meu nome é João Rubinato

Documentário de Pedro Serrano é o primeiro longa a contar a trajetória do célebre sambista de São Paulo

TEXTO FERNANDO SILVA

02 de Março de 2020

O documentário é o primeiro longa-metragem a contar a trajetória do artista

O documentário é o primeiro longa-metragem a contar a trajetória do artista

Foto Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 231 | fevereiro de 2020]

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Adoniran Barbosa
é presença constante no imaginário de Pedro Serrano desde que ele conheceu a obra do compositor de Saudosa maloca, na infância, numa escola de música em São Paulo. Dali em diante, o interesse em entender aquele homem de chapéu de feltro e gravata borboleta não parou. Ainda na faculdade, colocou Véspera de Natal na trilha sonora de seu curta-metragem Natais. Depois, já um profissional do cinema, foi a vez de o diretor escalar Paulo Miklos para encarnar Barbosa em Dá licença de contar, ficção inspirada no universo criativo do sambista. E, agora, lança o documentário Adoniran – Meu nome é João Rubinato (em tempo: filme tem exibição dia 22 de agosto, em especial da TV Cultura).

Para o filme, o primeiro longa-metragem a contar a trajetória do artista, Serrano queria levar à tela o que aprendeu durante o processo de emendar projetos cinematográficos ligados ao artista. Uma das ideias centrais da produção é mostrar como o descendente de italianos João Rubinato saiu de Valinhos, município paulista localizado a 85 quilômetros da capital do estado, e virou Adoniran Barbosa, considerado um dos maiores símbolos de São Paulo, graças às crônicas de seu cotidiano, escritas por ele em formato de músicas. “Tudo o que cantou sobre especulação imobiliária, gentrificação, desigualdade social, problemas urbanísticos nos lugares mais humildes, segue atual e presente na cidade”, diz o diretor paulistano de 33 anos.

Assim, Serrano mescla imagens da metrópole no século XXI e de seus habitantes em situação de rua (de acordo com censo da prefeitura local, divulgado em janeiro deste ano, eles eram 24.344 em 2019) a cenas de arquivo da São Paulo das décadas de 1950, 1960 e 1970, em constante transformação e com dilemas parecidos aos de hoje. Surgem na montagem, também, diversas camadas da história de Barbosa reveladas pelo trabalho de pesquisa em acervos, como o do músico e o do Cedoc (o Centro de Documentação da Fundação Padre Anchieta) da TV Cultura.


Documentário Adoniran - Meu nome é João Rubinato tem direção de Pedro Serrano. Foto: Dibulgação

O compositor, o ator, o comediante, o cantor e o homem vão se revezando nesse retrato, que ganha contornos não tão conhecidos do grande público. Ali está, por exemplo, o Adoniran que se apresentava ao vivo em programa de TV, acompanhado pelo grupo Os Demônios da Garoa, responsável por popularizar várias de suas faixas, caso de Trem das onze. E é possível vê-lo em ação no filme Candinho, de 1954, dirigido por Abílio Pereira de Almeida e no qual ele contracena com Amácio Mazzaropi. Isso, sem contar a satisfação do sujeito transbordando na tela, ao mostrar os trenzinhos de brinquedo que construía ou ao passear de braços dados com a cantora Elis Regina pelo bairro da Bela Vista, na região central de São Paulo.

Para Serrano, nada disso existiria sem uma faceta do artista, em especial. “O rádio é o veículo mais marcante na trajetória dele. Nele, Adoniran desenvolve a linguagem do falar errado, desenvolve personagens que o transformam num radioator cômico, num humorista.”

O documentário destaca o sucesso de Barbosa nessa seara, em que seu maior parceiro foi o jornalista, roteirista e radialista Osvaldo Moles. Com ele, criou diversos tipos para interpretar ao microfone, juntando crítica social, relatos espirituosos do dia a dia e a mistura de sotaques que desaguava no dialeto dos paulistanos. Entre os papéis, dava vida ao malandro Charutinho e ao comerciante Moisés Rabinovitch, este, levado às telas do cinema. Serrano diz não ter dúvidas a respeito da importância deles na música que o consagraria. “Quando ele transporta isso pro samba é que consegue criar um estilo único, próprio, que ficou tão marcante.”

Mas se o artista ficou conhecido em todo o país por canções como Tiro ao Álvaro e As mariposas, por que até agora, 37 anos após sua morte, ninguém utilizara as câmeras para contar tal trajetória? O responsável por fazê-lo brinca: “Concluo que é sorte do destino, que deixou uma bola quicando pra eu chutar.” Com experiência no tema, o diretor arrisca outra resposta para tentar solucionar a charada: “Por um tempo, houve dificuldade em enxergá-lo como personagem valioso a ser retratado. E, até, por esse jeito mais bem-humorado, ele tenha sido colocado como algo menor, como se sua poética tivesse menos valor”.


Foto: Divulgação

Para quebrar o jejum, e ver o resultado pronto para chegar ao circuito comercial, foram quatro anos. Nascido do processo de pesquisa e produção do curta Dá licença de contar, de 2016, o documentário foi aos poucos tomando forma. “Comecei a entrevistar as pessoas e a gravar. Pensei ‘no mínimo, isso fica de registro pra mim’”, relembra Serrano. “Aí, fui percebendo que havia espaço pra fazer, era um resgate importante para as novas gerações, que não lembravam quem era Adoniran – conheciam a obra, mas não associavam mais ao nome.”

Entre os depoimentos que colheu estão o do sobrinho do compositor, Sérgio Rubinato, o do jornalista Alberto Helena Júnior e o de João Carlos Botezelli, o Pelão, produtor nos dois primeiros álbuns de Barbosa, lançados em 1974 e 1975. Outro entrevistado é o cantor Carlinhos Vergueiro, que conta como ele e o amigo escreveram a música Torresmo à milanesa.

Engana-se, porém, quem acha que o efeito dominó que Adoniran Barbosa tem na carreira de Pedro Serrano vai terminar com a tarefa de ter dirigido um documentário sobre ele. Além de um projeto ainda sem título, um filme de ficção relatando o cotidiano de um personagem perdido na polarização política do Brasil atual, ele prepara a transformação de Dá licença de contar em longa-metragem, numa ampliação da história mostrada no curta. “Com o mesmo elenco (que conta com Paulo Miklos, Gero Camilo e Gustavo Machado), seguindo as mesmas premissas. E o roteiro está pronto”, conta.

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EXTRA: Curta 'Dá licença de contar' (2015)

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FERNANDO SILVA
é jornalista.

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