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Curtas

Ideias para adiar o fim do mundo

A ambientalista indígena Ailton Krenak publica falas imprescindíveis para estes tempos

TEXTO Olívia Mindêlo

05 de Maio de 2020

Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro

Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro

Foto Neto Gonçalves/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 233 | maio de 2020]

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Gozar sem nenhum objetivo. Mamar sem medo, sem culpa, nem nenhum objetivo. Nós vivemos num mundo em que você tem que explicar por que é que está mamando. Ele se transformou numa fábrica de consumir inocência.
Ailton Krenak

Sustentabilidade: um mito “inventado pelas corporações para justificar o assalto que fazem à nossa ideia de natureza”. Humanidade: uma “ideia plasmada”, homogênea, “na qual há muito tempo o consumo tomou o lugar daquilo que antes era cidadania”. Indígenas: os povos originários do território que hoje chamamos de Brasil, gente que vive a criar estratégias de sobrevivência desde o século XVI, quando do início do processo de colonização do país (“A civilização chamava aquela gente de bárbaros e imprimiu uma guerra sem fim contra eles, com o objetivo de transformá-los em civilizados que poderiam integrar o clube da humanidade”).

Com as palavras de Ailton Krenak, descendente da população que vem, há centenas de anos, buscando existir e se perpetuar à margem do Watu (nome original do Rio Doce, em Minas Gerais), podemos reinventar dicionários e redirecionar a narrativa da nossa trágica história. São curtos, certeiros os argumentos presentes no seu livro Ideias para adiar o fim do mundo, lançado pela Companhia das Letras em 2019 – definido pela Unesco como “o ano internacional das línguas indígenas”, segundo informação do próprio Krenak em sua publicação, escrita em português. “Todos nós sabemos que a cada ano ou a cada semestre uma dessas línguas maternas, um desses idiomas originais de pequenos grupos que estão na periferia da humanidade, é deletada.”

As 88 páginas editadas em formato de bolso compilam um pensamento urgente sobre um mundo que agoniza à beira do abismo. Uma “parábola destes tempos”, já disseram; ou, poderíamos dizer, uma virada de perspectiva para iniciarmos, em coletividade, um processo de transformação social, cultural, ambiental – na mais otimista das ideias. Krenak não está falando apenas em salvar as populações originárias de todo mundo, tão ameaçadas quanto as montanhas (suas avós), florestas (suas mães), faunas (seus irmãos), rios (seus avôs) e a qualidade do ar que as cerca. Ele se refere a todos nós, envoltos por essa magia chamada Terra.

A despeito da acidez com a qual dita seu discurso tão doloroso quanto necessário ao dia de hoje, Ailton Krenak o constrói de forma didática, sob frases de efeito em modo alerta, a fim de que possamos, juntos em nossas diferenças, cumprir o dever de prorrogar, quem sabe, a queda do céu. “O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim”, diz Krenak, em alusão a obra monumental de Davi Kopenawa, liderança Yanomami. Seu livro A queda do céu, feito em parceria com o antropólogo francês Bruce Albert, nos leva a um mergulho na cosmovisão de seu povo, guardião da floresta, e alerta sobre uma destruição que anuncia o achatamento do céu. E, sem céu, nada somos.


Livro de Krenak é a edição de três palestras
realizadas por ele, em Portugal, em 2017 e 2019

Nascido em 1953, Krenak também é uma liderança que, tal qual figuras como o cacique Raoni Metuktire, Davi Kopenawa ou Sônia Guajajara, cumpre o papel de mensageiro entre os povos originários que lutam para manter grande parte das nossas riquezas – água, oxigênio, terra, essas que banalizamos – e o mundo branco hegemônico, pasteurizado pelo “insuportável abraço do progresso”, que não admite ser contrariado. Podemos pronunciá-lo como um dos grandes pensadores indígenas do país, protagonista da Assembleia Constituinte de 1987, em cuja tribuna subiu para fazer um discurso histórico em prol dos direitos indígenas (a cena está na internet e no incrível documentário Martírio, de Vincent Carelli).

É com essa bagagem – e autoridade – que Ailton Krenak tece uma conversa conosco ao longo das páginas. Conversa, porque o livro é a edição de três palestras proferidas por ele, curiosamente, em Portugal: Ideias para adiar o fim do mundo, em 12 de março de 2019; Do sonho e da terra, em 6 de maio de 2017; e A humanidade que pensamos ser, em maio de 2017.  “É importante viver a experiência da nossa própria circulação pelo mundo, não como uma metáfora, mas como fricção, poder contar uns com os outros. Poder ter um encontro como este, aqui em Portugal, e ter uma audiência tão essencial como vocês é um presente para mim. Vocês podem ter certeza de que isso me dá o maior gás para esticar um pouco mais o início do fim do mundo que se apresenta”, agradece ele, na palestra que dá título ao livro, ao público do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

É justamente com esse espírito de gratidão que devemos ler as falas de Krenak, vendo a edição desse livro-manifesto como um presente para esta humanidade ingrata, destrutiva, mas com capacidade de regeneração. Mesmo se já tenhamos consciência de tudo isso, é preciso pensar com o coração. Eis o convite do autor, em seu legítimo apelo. Ao propor que adiemos a queda do céu, Ailton Krenak não aponta exatamente um caminho, mas, com certeza, propõe que abandonemos este no qual estamos. O quanto antes. E, mesmo que não pronuncie, leva-nos à seguinte questão: como seria este mundo hoje se os povos originários tivessem a chance de governá-lo, nos propondo outras formas de viver? Ideias de bolso, para levarmos daqui adiante.

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EXTRA:
Ouça o nosso podcast com Ailton Krenak
PDF do livro Ideias para adiar o fim do mundo
PDF do livro O amanhã não está à venda

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OLÍVIA MINDÊLO é jornalista e editora Continente Online com mestrado em Sociologia.

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