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Curtas

Ocupadas

Exposição coletiva do projeto 'Ocupe Chris', puxada pela artista Christina Machado, está em sua segunda edição

TEXTO Samanta Lira

06 de Novembro de 2019

Durante oito meses, as artistas se reuniram para experimentar com a argila

Durante oito meses, as artistas se reuniram para experimentar com a argila

Foto Sofia Lucchesi/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 227 | novembro de 2019]

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Nascida em Belém do Pará e radicada no Recife, a artista plástica Christina Machado transformou o barro em fio condutor de suas criações, quando enveredou pelo universo artístico nos anos 1980. Do material, ela destaca a versatilidade responsável por “colocar para fora quem somos”, maior do que qualquer outro suporte de expressão artística. Dessa concepção, nasce Ocupadas, exposição coletiva do projeto Ocupe Chris, agora em segunda edição. “Essa versão do projeto veio com a proposta de acolher mulheres artistas, depois de estar com sete homens trabalhando juntos (na primeira edição), também buscando fomentar as vivências poéticas em torno das questões do lugar da mulher no social e no campo das artes, do feminino, do sensível, do estar junto”, esclarece a artista.

O nome da mostra faz referência à ideia das mulheres estarem sempre ocupadas, seja com a profissão, com os afazeres domésticos ou com a vida materna. Durante oito meses, uma vez por semana, as artistas Alice Vinagre, Ana Flávia Mendonça, Ana Lisboa, Irma Brown, Laura Melo e Lia Letícia se reuniram com Christina Machado para experimentar com a argila. O resultado desses encontros, materializado em peças de barro, instalações e vídeos, está aberto ao público até dezembro, no Ateliê das Águas Belas, residência e local de trabalho de Chris. Cada artista potencializou suas referências de vida através do barro, que aparece misturado a materiais como resina, vidro e crochê.

Para o Ocupe Chris, Alice Vinagre produziu peças de cerâmica similares a cavernas, remetendo à pré-história. Ana Flávia desenvolveu uma cobra de cerâmica com cerca de dois metros, representando uma relação com a energia vital. Ana Lisboa, além de uma instalação com peças de barro, apresenta um registro em vídeo da performance Celebração, em que serviu jantar com pratos de barro feitos por ela, enfatizando gestos cotidianos num ritual de partilha e afeto. Christina Machado traz a instalação Afeto, dando vida ao objeto que remete a um feto humano, criado a partir da performance que apresentou no Sesc 24 de Maio, na qual 30 falos de argila referem-se ao estupro coletivo praticado por 30 homens há três anos, no Rio de Janeiro. O vídeo da performance realizada em São Paulo também estará na exposição.

Irma Brown, por sua vez, construiu peças que se assemelham a bocas e línguas, evocando o ato de devorar e regurgitar, entre tantos outros processos que passam pela boca. Laura Melo produziu 27 peças de barro, uma para cada estado do Brasil, registrando casos de feminicídio ocorridos neles durante os oito meses de vivência do projeto. Lia Letícia, com obras em barro e alumínio, põe em questão os desastres ecológicos ocorridos nas cidades de Mariana e Brumadinho (MG). "A exposição enfatiza sobretudo o processo, o elo que a partir dele se criou, o desprendimento de cada uma no coletivo", pontua Chris.

Peças musicais inspiradas na paisagem sonora do ateliê foram compostas pelos músicos da banda Mombojó, Vicente Machado e Chiquinho Moreira, que acompanharam encontros das artistas participantes. Integrando uma das ativações da mostra, os artistas realizarão uma apresentação ao vivo, a ser divulgada. Com entrada gratuita – nas quintas, das 10h às 17h, e aos sábados, das 15h às 19h –, a exposição segue em cartaz até 14 de dezembro. As visitas podem ser agendadas pelo e-mail educativoocupechris@gmail.com, ou nas páginas do projeto no Facebook e Instagram.

SAMANTA LIRA é uma jornalista em formação e estagiária da Continente.

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