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Curtas

Tom Zé

Lançada pela Edições Sesc, biografia é a primeira do músico que é tropicalismo em carne e osso

TEXTO Fernando Silva

01 de Abril de 2021

'Tom Zé, o último tropicalista' é a primeira biografia do músico nascido em Irará, na Bahia

'Tom Zé, o último tropicalista' é a primeira biografia do músico nascido em Irará, na Bahia

Foto Acervo pessoal

[conteúdo na íntegra | ed. 244 | abril de 2021]

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Admirador da riqueza harmônica e melódica da bossa nova, o italiano Pietro Scaramuzzo decidiu dar um passo adiante logo que ouviu Roda viva, de Chico Buarque, pela primeira vez. Aquela canção o fez mergulhar de vez na música do Brasil e, para entendê-la por completo, precisou aprender português a qualquer custo. Passou, então, a estudar a língua e a ler sobre a cultura do país, pesquisando o som de vários artistas, mas ainda parecia faltar algo que só começou a perceber ao seguir uma dica da brasileira Cléo. O conselho tinha título e até parênteses – ouvir Frevo (Pecadinho), de Tom Zé –, e o resultado foi amor à primeira audição. Era 2013, ano em que ele conheceu sua esposa, e começava ali a história que o levaria a escrever Tom Zé, o último tropicalista, primeira biografia do músico nascido em Irará, na Bahia.

A ideia para o livro – lançado primeiro na Itália, em 2019, pela add editore, e em dezembro de 2020, no Brasil, pelas Edições Sesc –, porém, surgiu aos poucos. Por muito tempo, o jornalista correu atrás de Tom Zé, na tentativa de entrevistá-lo para o Nabocadopovo (nabocadopovo.it), portal que fundou em 2012 para escrever sobre música brasileira ao público italiano, até que as agendas confluíram, em 2016. O baiano o recebeu em sua casa, no Bairro das Perdizes, zona oeste de São Paulo, e colocou Scaramuzzo em apuros. “Ele começou a falar do Tropicalismo, de filosofia, de poesia provençal. Foi uma conversa superdensa, que gravei em vídeo, e, cara, eu não sabia como transcrever tudo aquilo para deixar curtinho”, conta o italiano, divertido e em português fluente, pelo Skype, direto de Lyon, na França, onde mora hoje. O encontro de cerca de duas horas acendeu ainda mais o interesse pelo artista e o fez procurar por uma biografia dele.

Só que não existia uma obra abordando toda a trajetória de Tom Zé, como havia lhe dito Neusa Martins, esposa e empresária do músico, e ele ficou com o projeto na cabeça. De início, achou melhor guardar as intenções para si. “Naquela hora, eu não tive a coragem de me propor como biógrafo do Tom Zé, sabe? Ia ser muito cara de pau”, afirma. Pensou, pensou, até se decidir a apresentar a empreitada. Os dois deram o sinal verde e assim toparam colaborar na produção do livro que mostra, em 336 páginas, da infância do artista à explosão do movimento tropicalista, passando pelos tempos de ostracismo e o resgate de sua obra.


Para a tarefa de reconstruir a história, Scaramuzzo se comunicava com o artista por e-mail e também utilizava o WhatsApp. Foto: Laura Rosenthal

Retrato em alta definição do homem que canta “eu tô te explicando pra te confundir/eu tô te confundindo pra te esclarecer”, a biografia oferece diversas peças para montar o quebra-cabeça da vida de Tom Zé. Dá pistas de influências, como o sambista Adoniran Barbosa (1910-1982) e o livro Os sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909), e desvenda bastidores de episódios importantes, entre os quais, de que forma se deu sua contratação pela gravadora pernambucana Rozenblit para gravar o primeiro disco, de 1968, e o dia no qual conheceu Neusa, com quem é casado desde 1970. Sem deixar de explicar o momento de ebulição cultural que vivia a Salvador do fim dos anos 1950 e início dos 1960, o berço do que seria o Tropicalismo.

Para a tarefa de reconstruir a história, Scaramuzzo se comunicava com o artista por e-mail e também utilizava o WhatsApp. Como morava em Lisboa à época, e com o aprofundamento da pesquisa e dos assuntos, o telefone logo se tornou um instrumento vital. “Quem administrava era a Neusa: passava a ela os temas que queria abordar, e o Tom Zé ficava se preparando. Ele estudava mesmo!”, relembra. Aí virou rotina, com dois ou três telefonemas por semana. “A gente tinha horário marcado, data marcada e conversava de forma livre.” Ele entrevistou ainda personalidades como Gilberto Gil, José Miguel Wisnik, Rita Lee e, na capital portuguesa, conseguiu se encontrar com Caetano Veloso para um papo no camarim, antes de um show de sua turnê Ofertório.

Assim, o jornalista e médico de 39 anos costurou uma trama responsável por levar o leitor a assistir tanto a um rapaz extremamente tímido inventar o próprio estilo de compor música, atrás do balcão de sua loja de eletrodomésticos e artigos de presente na Irará da década de 1950, quanto ao homem frustrado e chateado por se ver ignorado pela imprensa e o público, ao lançar discos como Todos os olhos, de 1973, e Estudando o samba, de 1976. Álbuns que seriam celebrados mundo afora somente após duas décadas de esquecimento.


O jornalista italiano Pietro Scaramuzzo, autor da biografia. Foto: Divulgação

Tal fase é considerada inacreditável pelo autor do livro. “Hoje, se você imagina aquele tempo, você pensa ‘não é possível que o Tom Zé ia trabalhar no campo tendo produzido esses discos. Ele não conseguia fazer shows’”, diz, referindo-se a quando foi funcionário de uma empresa agrícola em Embu das Artes, na Grande São Paulo. “Para mim, o Brasil tem uma dívida de 20 anos com Tom Zé.”

O período de ostracismo só teve fim devido a um fato inusitado. De passagem pelo Brasil, nos anos 1980, o então líder da banda Talking Heads, David Byrne, se deparou com uma cópia de Estudando o samba numa loja, julgou interessante a capa que tem um arame farpado e a levou aos Estados Unidos. Foi colocar o vinil na vitrola e o som não parou mais de fazer sentido. “Esperava ouvir samba e em vez disso encontrei a vanguarda de Nova York, de Paris e de Berlim. Alguém em São Paulo estava fazendo uma música de pesquisa malditamente boa”, afirma Byrne, em trecho de entrevista concedida a Scaramuzzo. Encantado pelas invenções de Tom Zé, o norte-americano quis conhecê-lo e acabou o contratando para seu selo Luaka Bop.

Agora, outro estrangeiro se debruça sobre Tom Zé, em mais um encontro marcado pela curiosidade. Para Scaramuzzo, essa é a grande característica do músico, hoje com 84 anos. “Talvez tenha sido ela quem o deixou são e vivo naquele momento (de ostracismo artístico). Porque desde criança, ele se moveu pela curiosidade. Pela energia elétrica, pela banda que tocava no clube do lado da casa dele, pelas experimentações que fez”, enumera. “Tom Zé continua mantendo-a viva, por isso é tão elétrico. É uma curiosidade muito bonita.”

FERNANDO SILVA é jornalista.

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