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Ensaio

O ensaio e suas metamorfoses

TEXTO Kelvin Falcão Klein

03 de Maio de 2021

Ilustração PIKISUPERSTAR/FREEPIK

[conteúdo na íntegra | ed. 245 | maio de 2021]

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Muitas vezes o ensaio é utilizado como o ingrediente final no processo de consolidação de uma autora ou autor no panorama literário mundial. Por mais que os escritores escrevam seus ensaios em paralelo à ficção, a publicação final, em livro, com frequência é um evento tardio, bem posterior aos romances.

É o que acontece com Toni Morrison, autora de grandes romances como Amada e A canção de Solomon, Nobel de Literatura em 1993 e excepcional crítica, pensadora e professora. Em 2019, ano de sua morte aos 88 anos, Morrison lança uma coletânea de “ensaios, discursos e reflexões” intitulada A fonte da autoestima, na qual reúne textos escritos ao longo de 40 anos (Companhia das Letras, tradução de Odorico Leal).

O livro se divide em duas partes: a primeira, O lar do estrangeiro, é separada da segunda, A linguagem de Deus, por um interlúdio chamado Black Matter(s), com textos sobre raça, sobre Martin Luther King e sobre a presença afro-americana na literatura norte-americana. O espaço dedicado ao “estrangeiro” contém uma série de textos heterogêneos, desde o discurso dado no Nobel até uma reflexão sobre o 11 de Setembro, passando por intervenções sobre a guerra, o fascismo e o racismo.

A linguagem de Deus, por sua vez, é a seção dedicada em grande parte aos ensaios sobre literatura: James Baldwin, William Faulkner e também alguns textos de autocomentário (com destaque para aquele chamado O problema com Paraíso, no qual Morrison comenta sua tentativa de representar o “êxtase religioso” sem uso da “linguagem sexual”). O ensaio, para Morrison, é uma forma em movimento, serve para comentar, em diversos níveis de sentido, tanto a obra própria quanto a obra alheia – ao falar de Baldwin e Faulkner, por exemplo, ela também está falando das próprias poética e escolhas.

O ensaio sobre Gertrude Stein é exemplar nesse sentido: Morrison fala da “dedicada investigação sobre a vida interior” do “Outro” feita por Stein em toda sua obra, levada a cabo com “fusão de formas”, “ausência de fronteiras”, “hibridismo de gêneros”, “combinação de estilos” e “redefinição de papéis tradicionais de gênero”. Ainda mais especificamente, e diretamente ligado ao seu próprio projeto artístico, Morrison afirma que “na exploração de Stein” é essencial “a questão da relação entre a liberdade feminina e a sexualidade e o conhecimento”. Essa tríade de motivos é fundamental para a análise que Morrison propõe de um dos livros de Gertrude Stein, justamente Três vidas, lançado em 1909.

A maior dessas “três vidas”, posta no centro do livro de Stein, é a história de uma mulher negra, Melanctha, escreve Morrison: “imprensada entre as outras duas, ela parece emoldurada, presa pelas outras como se para destacar e ressaltar sua diferença enquanto a mantém firmemente sob controle”. Mas nem tudo está sob controle e Morrison explora a ambiguidade do retrato que Gertrude Stein propõe de Melanctha. O que está em questão não é tanto a dimensão de uma “representatividade”, afirma Morrison, mas o modo como o “africanismo” da seção de Três vidas dedicada a Melanctha se torna uma forma pela qual Stein “pode pisar com segurança num terreno proibido”, articulando “o ilegal” e “o anárquico” ao destino das mulheres (só na história de Melanctha a questão da educação sexual e das relações sexuais são centrais à narrativa e ao destino dos personagens).

O que Morrison identifica nas “vidas” criadas por Stein não é apenas a presença de Melanchta e sua relação desigual perante as outras duas histórias. O que Morrison salienta é a forma como o romance de Stein comenta, indiretamente, a constituição de uma “identidade nacional” nos Estados Unidos baseada em um mecanismo de exclusões: “no processo de escolha” dos elementos importantes para essa identidade, escreve Morrison, “o não selecionado, o não escolhido, o detrito é tão significante quanto o americano construído e cumulativo”. A obra de Stein toma “a brancura como precondição da americanidade” e, ao mesmo tempo e quase que contra sua vontade (essa é a potência da arte literária), apresenta uma personagem radicalmente diversa e fora da curva: Melanctha é livre, “livre para perambular pelas ruas, demorar-se em esquinas, visitar a cena dos homens negros trabalhando na ferrovia, nas docas”.

Independentemente do tema, Morrison usa o ensaio para modular a perspectiva do leitor. Leva o leitor até determinado ponto (de uma situação, de um texto, de um evento histórico) e então, abruptamente, transforma o panorama e propõe perguntas distintas. Seus ensaios não são apenas “informativos”, são também “formativos”, oferecem a performance de um pensamento e de uma ética, ou seja, certas indicações de como se posicionar de forma responsável diante do mundo e de outros indivíduos.

 
Obras ensaísticas publicadas recentemente no Brasil, de autoria de Toni Morrison e Maggie Nelson. Imagens: Divulgação

DEPOIS DE MORRISON
Como tem circulado essa potencialidade do ensaio nos últimos anos? Que trabalhos têm sido publicados ao redor dessa complexa possibilidade que o ensaio tem de modificar e modular visões de mundo? A boa notícia é que vários livros recentes têm explorado esse campo e aqui gostaria de comentar uma breve seleção deles.

Originalmente de 2015, mas lançado no Brasil em 2017 (Autêntica, tradução de Rogério Bettoni), Argonautas, de Maggie Nelson, é um livro de difícil classificação. É inegável, contudo, que o trabalho parte de uma perspectiva ensaística – o comentário de obras e ideias alheias através de uma investigação que é tanto histórica quanto subjetiva. No rastro de ensaístas como Susan Sontag e Roland Barthes, Nelson faz muito uso da filosofia para dar conta de uma situação peculiar: sua gravidez e seu relacionamento com o artista Harry Dodge, uma pessoa de gênero fluido. Uma série de noções sobre sexualidade, gênero, casamento e educação infantil são mobilizadas e transformadas por Nelson em seu ensaio autobiográfico (“Não consigo segurar meu bebê e escrever ao mesmo tempo”, ela anota em certo momento).

O ensaio de Nelson não é apenas sobre maternidade, sobre o trabalho intelectual durante a maternidade ou sobre a vida cotidiana em uma metrópole sob o regime do capitalismo tardio – embora abarque esses temas e muitos outros. “O prazer de reconhecer que talvez seja preciso passar pelas mesmas percepções, escrever as mesmas anotações nas margens, retornar aos mesmos temas na própria obra”, escreve Nelson, “não porque a gente é estúpida, teimosa ou incapaz de mudar, mas porque revisitações assim constituem uma vida”. Argonautas mostra que o contexto transforma radicalmente os textos – quando a pessoa se transforma (muda de cidade, de opinião, de idade, de estado civil), vê com outros olhos aquilo que viu outrora. Nelson retorna insistentemente, ao longo do livro, a autoras/autores, textos e ideias, revirando suas premissas e a relevância daquilo para a própria vida (recorrendo a nomes diversos como Wittgenstein, Judith Butler, Winnicott, Eve Kosofsky Sedgwick, Deleuze, Kristeva e muitos outros).

É esse complexo sistema de mudança e permanência que está por trás do título do ensaio de Nelson: a embarcação dos argonautas, depois da viagem e das aventuras, é recolhida e fica em exposição, como um monumento. Com o passar dos anos, a madeira vai se deteriorando e novos pedaços são incorporados à embarcação, pouco a pouco. A embarcação deixa de ser aquilo que era com a inclusão de novos elementos? Caso sim, quando exatamente essa transformação está completa? Quem poderá garantir que já não há nenhum traço do “passado” no “presente”? Mais uma vez o ensaio funciona como uma experiência de mudança de perspectiva diante do mundo.

De quem é esta história?, de Rebecca Solnit, também aborda esse tipo de experiência. Lançado originalmente em 2019 e, no Brasil, em 2020 (Companhia das Letras, tradução de Isa Mara Lando), o livro de Solnit é uma coletânea com 20 ensaios diretamente voltados para a contemporaneidade: a eleição de Trump, a ascensão da direita fascista em vários pontos do mundo, o retrocesso vergonhoso no que diz respeito aos direitos fundamentais de mulheres e pessoas não brancas, a proliferação de discursos de ódio nas sociedades ao redor do mundo e a batalha pelo controle das narrativas na era da desinformação maliciosa liderada por multinacionais como Amazon e Facebook.

Solnit discute o presente a partir de uma escala histórica, colocando em perspectiva o avanço no que diz respeito ao voto das mulheres, por exemplo. “Vivemos dentro das ideias”, escreve ela, “algumas são abrigos, outras são observatórios, outras são prisões sem janelas. Estamos deixando algumas para trás e entrando em outras”. A mídia de massa prefere as explicações simples, as culpabilidades cristalinas – as ideias, contudo, são complexas, cheias de camadas. “Hoje é fácil presumir que nossas opiniões sobre raça, gênero, orientação sexual e tudo o mais são sinais de uma virtude inerente”, continua Solnit, “mas muitas ideias que circulam agora são presentes que chegaram há pouco, por meio do trabalho e do esforço de outras pessoas”. É preciso insistir dia a dia no “trabalho intelectual” para rejeitar os pressupostos incorporados na linguagem, “as forças que levantam alguns de nós e derrubam outros”, para compreender e descrever o passado e o presente e propor novas possibilidades para o futuro.

Em vários dos ensaios de De quem é esta história?, Solnit apresenta o contexto de uma luta permanente pela circulação das narrativas e das histórias (sobre o aborto, o mercado de trabalho, a emancipação dos subjugados, as eleições). Frequentemente, defende ela, é necessário apostar no futuro, na construção de base de uma nova mentalidade que precisa ser cultivada: “o verdadeiro trabalho não é converter aqueles que nos odeiam”, até porque certas figuras estão, há décadas, distantes de qualquer tipo de debate, “mas, sim, mudar o mundo de maneira que esses que odeiam não detenham um poder desproporcional e que outros não sejam engolidos pelo pesadelo”.

A mudança de mundo hoje acarreta, necessariamente, a reconfiguração do passado e das várias violências naturalizadas que sobreviveram como “herança”. Solnit, entre muitos casos, cita o exemplo da atriz Tippi Hedren que, meio século depois do sucedido, contou como Alfred Hitchcock a molestou sexualmente e a assediou fora das filmagens; como a puniu durante as filmagens e depois lhe disse, com o rosto vermelho de raiva, caso ela continuasse rejeitando seus avanços: “Eu vou arruinar a sua carreira”. Hitchcock, “cujo desejo de punir mulheres belas é o que move muitos de seus filmes”, escreve Solnit, “fez o possível para cumprir a ameaça, chegando a impedir uma indicação ao Oscar por sua atuação como Marnie, em seu filme homônimo de 1964”.

Essas pessoas famosas não são exceções, mas, sim, exemplos: “as figuras públicas que conhecemos, representando os dramas que estão acontecendo nas escolas, nos escritórios e nas igrejas, nas campanhas políticas e também nas famílias”. Não deveríamos lamentar o fim da vida criativa dos homens que estão sendo expostos como agressores, escreve Solnit, remetendo a outros casos comentados por ela (Harvey Weinstein, Bill Cosby, Roger Ailes, Woody Allen, Louis C. K.), “deveríamos, isso sim, contemplar as contribuições criativas que nunca tivemos e nunca conheceremos, porque suas criadoras foram esmagadas ou excluídas”.

 
Obras ensaísticas publicadas recentemente no Brasil, de autoria de  Rebecca Solnit e Jia Tolentino. Imagens: Divulgação

***

Outra voz de peso a surgir foi a de Jia Tolentino, autora de Falso espelho: reflexões sobre a autoilusão, também de 2019 e lançado no Brasil em 2020 (Todavia, tradução de Carol Bensimon).

Os ensaios de Tolentino são bem diferentes dos de Solnit, o que mostra, antes de mais nada, a margem de manobra criativa disponível no gênero. Se os textos de Solnit são muitas vezes curtos e diretos, os de Tolentino são mais longos, mais narrativos e frequentemente autobiográficos. Além disso, Tolentino aborda de forma muito próxima as mudanças vertiginosas da chamada “cultura digital” (a “autoilusão” do título diz respeito, sobretudo, ao sistema narcisista de identificação contemporânea ligada às redes sociais). “Quando criei um perfil no Facebook, no fim de meu último ano no Ensino Médio”, escreve ela, “senti que tinha entrado em um sonho narcisista maravilhoso. Na época, estava no auge de meu interesse em mim mesma, extremamente focada em tentar descobrir quem eu me tornaria quando não estivesse mais confinada em um ambiente cheio de republicanos e aulas diárias de religião”.

Em seus ensaios, Tolentino está constantemente mobilizando o contato tenso entre interioridade e exterioridade, entre percepção pessoal e visão social, e como as redes sociais fizeram esse relacionamento entrar em curto-circuito. Essa dinâmica é repensada por Tolentino a partir de uma série de exemplos e discussões minuciosas (por vezes engraçadas, irônicas, trágicas, desoladoras) sobre roupas de ginástica para mulheres, igrejas evangélicas no interior dos Estados Unidos, uso de drogas, misoginia universitária, alimentação saudável, literatura para jovens adultos com protagonistas mulheres e assim por diante.

Dos nove ensaios reunidos por Tolentino em Falso espelho, ao menos três são diretamente autobiográficos, lidando com suas experiências em primeira mão: Entrando em um reality show, sobre sua experiência no programa Girls vs. Boys: Puerto Rico; Êxtase, sobre sua experiência em uma igreja evangélica durante a infância e a adolescência; e “Com temor, eu te desposo”, uma reflexão sobre o casamento no mundo atual baseada em sua própria escolha de não se casar. A divisão, contudo, não é rigorosa, já que Tolentino sempre encaixa em seus ensaios uma dimensão de vivência direta. No caso do ensaio Viemos da velha Virgínia, por exemplo, sobre a cultura do estupro nas universidades estadunidenses, ela fala dos anos que passou como estudante na Universidade da Virgínia; no ensaio A otimização constante, sobre as transformações no ideal da “mulher perfeita”, Tolentino comenta sua própria experiência com o método barre de ginástica, “uma atividade maníaca e ritualizada, muitas vezes com um roteiro que inclui mudanças ensurdecedoras de música e iluminação”. “Naquele dia”, escreveu ela sobre a primeira aula, “senti como se um carro de polícia estivesse dando cavalinhos de pau em meu córtex frontal por 55 minutos sem parar”.

A postura de Tolentino diante do mundo é, ao mesmo tempo, singular e corriqueira, na medida em que desperta a identificação. Acompanhar sua descrição do mundo contemporâneo (a busca pelo olhar do outro nas redes sociais, nos aplicativos, na academia, na universidade) é um modo de também reconfigurar nossa própria perspectiva: “É muito fácil, sob o estado da sempre crescente obrigação artificial”, escreve Tolentino sobre o hábito de almoçar em 10 minutos para voltar ao trabalho, “acabarmos organizando nossa vida ao redor de práticas que considerados ridículas e possivelmente indefensáveis”. Ainda que seja um exemplo específico, a reflexão se aplica a uma série de outras práticas ridículas que pautam nosso cotidiano. Com suas diferentes ênfases, Toni Morrison, Maggie Nelson, Rebecca Solnit e Jia Tolentino exploram, a partir da escrita do ensaio, as possibilidades emancipadoras do pensamento crítico, da empatia e da tolerância. 

KELVIN FALCÃO KLEIN, professor de Literatura Comparada na Unirio, autor de Wilcock, ficção e arquivo (2018).

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