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Entremez

Mamãe vacinava os filhos sem medo

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

02 de Fevereiro de 2021

Imagem Cadu Rolim/Fotoarena

Minha irmã mais velha morreu de difteria, no ano de 1948, quando tinha apenas dois anos e meio. Meus pais moravam na fazenda Lajedo, em Saboeiro, no sertão dos Inhamuns. João Leandro e Ritinha Brito casaram com apenas 20 anos, em 1945, e assumiram a propriedade sertaneja do meu avô paterno. A antiga sesmaria pertencera ao Barão e Visconde do Icó, Francisco Fernandes Vieira, homem poderoso, cuja família manteve por décadas uma guerra fraticida com os Feitosa. As disputas pela terra e as matanças dos dois lados precisaram de várias intervenções da Coroa, com visitas de juízes interventores e prisões dos assassinos em Portugal, de onde nunca retornaram.

Restava da extensa propriedade original uma casa modesta e uma barragem construída por escravos, com blocos de pedra lavrada, sobrepostos sem rejunte de argamassa, que não deixavam passar um filete de água. Quando meus pais tomaram posse na herdade, ainda corriam pelas matas e capoeiras bandos de emas e seriemas, jacus, raposas, guarás, veados, onças, tamanduás, tatus e pebas. Eram incontáveis as ararinhas azuis, papagaios e periquitos, rolinhas, nhambus, pombas asa branca, codornizes, juritis e bandos migrantes de aves de arribação.

A residência palaciana do Visconde, no Monte do Carmo, próxima ao Rio Jaguaribe, foi abaixo. Diz a lenda que ela ostentava 114 portas e janelas. Também derrubaram a casa da filha, erguida ao lado e pintada com mistura de cal e clara de ovos. Não tiveram melhor destino a vivenda do Monte Alverne, quatro pedestais com estátuas de mármore importados de Carrara, na Itália, e seus majestosos currais de pedra. Os monumentos sertanejos, abandonados e arruinados, viram pó. E na memória das pessoas, esquecimento. Aprendemos nos livros de história sobre as dinastias persas e egípcias, mas ignoramos o essencial da nossa formação.

Os dias de minha mãe não foram bastantes para chorar a perda da filha e narrar o sofrimento da criança agonizando em seus braços, febril e sem conseguir respirar. Não havia vacinas nem antibióticos e o prognóstico da doença era a morte. Da menina restou um caixote com roupinhas e um cacho dourado de cabelos.

Mamãe engravidou do terceiro filho e teve o parto complicado. O bebê apresentou-se podálico, a parteira não conseguiu executar a manobra de giro e ele morreu depois de horas tentando nascer. Mamãe foi carregada numa rede até Saboeiro, da mesma maneira que se transportavam os defuntos para enterrar. Na cidade, extraíram o pequeno corpo arroxeado do corpo da mulher agonizante. Mas naquele mundo arcaico e sofrido, depressa se providenciava outro filho, igualzinho às reses nos currais e pastos. Meu nascimento se deu um ano depois dessa tragédia.

Em 1955, o casal de 30 anos, com dois filhos enterrados e quatro vivos, olhou as terras se tornando improdutivas e desérticas, a praga do bicudo destruindo as lavouras de algodão, os rebanhos bovinos, caprinos e ovinos sofrendo com as estiagens; contemplou a fauna e a flora nativas em processo de extinção e decidiu ir embora. Já não havia mais futuro nas terras ocupadas por nossos ancestrais desde o início do século XVIII. A cidade do Crato, onde a mãe nasceu e morou até se casar, foi o destino da família.

A vacina com poder de imunização de 100% contra a difteria teria salvado nossa irmã mais velha. A assistência médica adequada durante a gravidez e o parto garantiriam a vida do terceiro irmão. Meus pais, pessoas de mente aberta, contagiados pela modernidade e pela ciência, sonhavam outro futuro para os filhos, longe da agricultura improdutiva e da pecuária sujeita aos humores do clima. Largaram o sertão sem olhar para trás, sem lamentar o que perdiam. Ansiavam por uma vida urbana, por romper a herança ancestral que os ligava à terra.

No final da década de 1950, a varíola, endêmica no Brasil, teve um importante surto no Ceará. Lembro a barraca do exército armada na Praça da Sé, em Crato, e as longas filas de pessoas para a vacinação. Forças armadas se uniam aos serviços médicos sanitários na campanha para erradicar a varíola, que durante séculos causou tantas baixas em nosso país. Minha mãe, atenta e bem informada, compareceu com os cinco filhos a uma das barracas. Alguns de nós já contraíra sarampo, varicela, parotidite e coqueluche.

Passados os primeiros dias de pós-vacina, apenas o filho mais velho de 13 anos “pegou”, como diziam: desenvolveu uma pústula no local da inoculação. Mamãe inquietou-se, procurou uma parenta biomédica e ela orientou-a a fazer um novo procedimento. Com uma agulha metálica de aplicar injeção, mamãe escarificou um ponto em nossos braços e sobre ele aplicou o pus retirado da vacina de nosso irmão. Foi assombroso o resultado, todos desenvolvemos a pústula e ficamos imunes.

Os pais, nascidos no campo em meio a uma vida rude, eram tocados pela ciência e pelo conhecimento. Papai sempre foi avesso a crendices e superstições. Bem jovem rompeu com a Igreja Católica e, poucos dias antes de morrer, aos 90 anos, revelou-me que não acreditava em outra vida além da terrena. Os dois me estimularam a estudar Medicina, quando revelei minha escolha por essa profissão.

Penso bastante em como os meus pais reagiriam ao isolamento social e ao risco de contrair a Covid-19. Eu era criança durante a campanha pela erradicação da varíola e não sei dizer se havia a mesma mercantilização da saúde, dos tempos de agora, quando a ciência corre o risco de perder a credibilidade. Nem se a indústria farmacêutica e outras empresas milionárias tinham apenas cobiça no lucro, muito acima dos interesses coletivos da humanidade.

Nossas instituições científicas foram desacreditadas, num jogo mantido pelo presidente da República e seu ministro da Saúde. A população sofre desinformada, ou mal-informada com mentiras. Será que agora mamãe teria a mesma convicção de vacinar-se contra a Covid-19 e mandar que vacinassem os oito filhos? Tenho certeza que sim. Mas talvez, por um momento, ela não soubesse em quem confiar. Teria dúvidas, sentiria abalada a sua fé na ciência e, sobretudo, nos políticos.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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