Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Entrevista

"Eu já estava em uma espécie de quarentena voluntária"

Em ‘Trëma', quarto disco lançado de forma independente e gravado em home studio, compositor e produtor Zeca Viana explora psicodelia e limites do ‘lo-fi’

TEXTO Débora Nascimento

01 de Julho de 2020

Zeca Viana compôs, gravou, produziu, mixou e masterizou álbum no home studio Recife Lo-Fi

Zeca Viana compôs, gravou, produziu, mixou e masterizou álbum no home studio Recife Lo-Fi

Foto Kamila Ataíde/Divulgação

[conteúdo na íntegra + entrevista extra | ed. 235 | julho de 2020]

contribua com o jornalismo de qualidade

Do yourself a favor, become your own savior. A frase da música Don’t let the sun go down on your grievances (1983), de Daniel Johnston, encontra uma irmandade com o lema do it yourself, que, além do punk, originou a atitude, a sonoridade e o movimento lo-fi (low fidelity, baixa definição), do qual o compositor norte-americano era um ícone. Em setembro do ano passado, enquanto Daniel, um dos heróis do DIY, morria de um ataque cardíaco aos 58 anos, um de seus fãs ao redor do mundo, em um home studio no Recife, criava o seu quarto disco de forma caseira e independente: Zeca Viana.

O músico pernambucano de 38 anos, um dos fortes e abnegados representantes do lo-fi nacional, persiste em fazer música independentemente das adversidades de um mercado ainda dominado por gravadoras que ditam, através das velhas e novas mídias, padrões sonoros medíocres e mediocrizantes. Em contraponto, no resistente território da música alternativa, habitam artistas como Zeca, que busca uma música autoral, uma assinatura, originalidade: “Para mim, compor é como caçar borboletas no inconsciente ou num lago com peixes misteriosos, as melhores ideias estão sempre submersas”.

Dentro do Recife Lo-Fi, estúdio caseiro que montou no Bairro da Estância em 2013, após ter morado por cinco anos em São Paulo, Zeca vive o que ele entende e sente como uma terapia imersiva. “Geralmente, busco uma atmosfera que vai me levando para lugares onde o dia a dia pode ficar momentaneamente suspenso. Sabe aquela sensação de quando ficamos letárgicos ouvindo uma música?” Para essa imersão, ele usa instrumentos como guitarras, diversos pedais, sintetizadores... “Vou gravando aleatoriamente e, quando consigo esse sentimento, então jogo a rede para ver se capto alguns acordes e palavras. Só tenho que bater à porta certa, porque a composição já está lá.” Enquanto vai organizando o aglomerado de imagens e acordes, paulatinamente vão surgindo canções como Fata Morgana e Alquimista, que compõem as 10 faixas do disco TRËMA.

Lançada em plena quarentena, a obra resulta de um autoisolamento ao qual Zeca, que é professor de Filosofia, se impôs dois anos antes da pandemia, para poder realizar seu mestrado (e agora doutorado) em Sociologia na UFPE e, ao mesmo tempo, fazer suas canções, para as quais grava sozinho cada um dos instrumentos, contando, para isso, com a experiência de já ter sido membro de diversas bandas, como Asteróide B-612 (guitarra), Volver (bateria) e Labirinto (baixo), com as duas últimas tocou em diversos estados e até fora do país.

Em TRËMA, Zeca Viana explora a psicodelia na qual vem trabalhando desde o primeiro álbum, Seres invisíveis (2009), que ficou em terceiro lugar na lista de melhores do ano no site TramaVirtual. Desde então, o seu artesanato musical vem rendendo canções surpreendentes, como a faixa de abertura do quarto disco, Mauriceia cogumelo cósmica, em que o músico, ao ter afinado a guitarra como viola caipira, e inserido, através da bateria eletrônica, sons de triângulo e zabumba, obteve o que ele denomina de psycho-xote. A psicodelia surge, nesse álbum, ou em nuances ou escancarada em faixas como Grilo furta-cor e Getting high.

A obra de Zeca Viana também abarca elementos marcantes do som dos anos 1980, algo que vem sendo explorado por diversas bandas, de Tame Impala a Terno Rei, e que o artista já apresentou no début Seres invisíveis, com Garota non stop, e no disco Estância (2015), nas faixas Sweet sixteen e Hotel Malibu. Em TRËMA, a estética oitentista pode ser ouvida em Fata Morgana e Amigo umbilical. “Não é algo que eu planeje ‘soar como anos 1980’. É muito natural, porque gosto mesmo dessas sonoridades, bateria eletrônica Roland TR-808, teclado Yamaha DX7 etc.”, afirma o artista, que, dentre suas referências, constam Echo & The Bunnymen, Siouxsie and the Banshees, Sugar Cubes, A-HA, Duran Duran e as love songs típicas daquela década.

“Criar a própria sonoridade do zero, tocar todos os instrumentos, mixar, é um trabalho grande. Requer muito estudo sobre frequências, natureza do som, mixagem, compressão, reverb. Enfim, é preciso disciplina para dominar as ferramentas que você tem em mãos”, conta o músico, que também masterizou o disco no home studio Recife Lo-Fi – mesmo nome das coletâneas que vem lançando e do programa de rádio que apresenta na Rádio Frei Caneca FM. Com um teclado midi, uma bateria eletrônica midi, duas guitarras, um baixo, dois microfones, uma interface de áudio de dois canais, um notebook, um fone de ouvido, dois monitores de áudio, um bocado de talento e estudo, Zeca realizou TRËMA, cujo excelente resultado no fone de ouvido pode, inclusive, desafiar o conceito de lo-fi.

A propósito, o título do disco surge não do sinal injustamente abolido com o Novo Acordo Ortográfico, mas da expressão teatral usada para descrever a ansiedade dos atores antes de entrar em cena e ressignificada pelo psiquiatra alemão Klaus Conrad (1905-1961). “É a descrição clínica de uma experiência subjetiva de estranhamento ao mundo; um tipo de ‘suspensão’ ou reconstrução de sentido, um êxtase místico que precede a experiência pré-psicótica. Geralmente, é seguido por frases como ‘as coisas estão estranhas’, ‘não pertenço a esse mundo’”, explica Zeca, que se identificou com o termo numa aula do mestrado – na vida acadêmica, ele se fez um favor, encontrou uma forma prazerosa de sobrevivência, não ofertada pela música que está fora dos padrões mercantis. Pesquisando mais, descobriu que a palavra vem do grego e significa abertura, fenda... “Como passei os últimos dois anos bastante recluso, praticamente apenas dedicado à academia, criei meu próprio TRËMA, como uma fenda sonora em forma de álbum; uma forma de me comunicar com o ‘mundo exterior’ nessa pandemia.”

CONTINENTE Primeiro, por que esse título?
ZECA VIANA O título vem do que se convencionou chamar Trema; expressão teatral utilizada pelos atores para descrever a ansiedade antes de entrar no palco e que foi ressignificada pelo psiquiatra alemão Klaus Konrad para descrever um quadro psicológico. De forma resumida, trema é a descrição clínica de uma experiência subjetiva de estranhamento do mundo; um tipo de suspensão ou reconstrução de sentido, um êxtase místico que precede a experiência pré-psicótica. Geralmente é seguido por frases como “as coisas estão estranhas”, “não pertenço a este mundo”, etc. Assistindo a algumas aulas no mestrado em Sociologia da UFPE, me deparei com esse termo e achei muito interessante. De certa forma, acho que me identifiquei bastante. Pesquisando mais a fundo, notei que a origem da palavra trema vem do grego e significa “abertura, fenda, buraco”. Trema também é um sinal que altera o som de uma vogal. Como passei os últimos dois anos bastante recluso, praticamente apenas dedicado à academia, criei meu próprio Trema, como uma fenda sonora em forma de álbum; uma forma de me comunicar com o “mundo exterior” nessa pandemia.

CONTINENTE É impressão minha ou nesse disco é a primeira vez que você acrescenta elementos de música nordestina tão fortes como o triângulo e a zabumba (Mauriceia cogumelo cósmica)? Como surgiu a ideia de acrescentar esses instrumentos? Já veio da fase da composição ou nos arranjos?
ZECA VIANA Foi a primeira vez. A ideia surgiu de algumas experiências com a afinação chamada “cebolão”, que é típica da viola caipira. Como não tenho viola, afinei a guitarra assim mesmo e usei um fuzz e outros pedais de modulação e ambiência. Fiz a estrutura da música, gravei a base, ia escrevendo algumas palavras e, na hora de gravar a bateria, descobri que a música era um xote ou um psycho-xote. Toquei a zabumba e o triângulo emulados na bateria eletrônica e casou perfeitamente. Só depois surgiu a letra completa, que é uma espécie de ode ao Recife. Depois, convidei Igor Taborg, grande músico da cidade, para gravar algumas flautas, e Kamila Ataíde, para me ajudar nas palmas e gravar algumas vozes de coro. Minha forma de compor é aparentemente caótica, porque vou fazendo tudo ao mesmo tempo e não sei exatamente o que vai surgir. Vou gravando, compondo, escrevendo a letra, tipo uma bricolagem, mas que se fecha em uma unidade no final. Às vezes, surgem alguns franksteins que deixo guardados. É um processo demorado. Essa faixa demorou mais de seis meses para ficar pronta. Agora lembrei que no álbum Seres invisíveis, de 2009, rolou um maracatu eletrônico na faixa Pra lá de Marrakesh. Na época, eu tinha essa ideia extravagante de fazer uma trilha sonora extemporânea para o quadro da Esfinge do Rá Tim Bum.

CONTINENTE A propósito, como é o seu processo de composição? Com qual instrumento você costuma compor?
ZECA VIANA É tipo uma terapia imersiva. Geralmente busco uma atmosfera que vai me levando para lugares onde o dia-a-dia pode ficar momentaneamente suspenso. Sabe aquela sensação de quando ficamos letárgicos ouvindo uma música? É isso. Uso muitos pedais, guitarra, sintetizador, etc. Vou gravando aleatoriamente e quando consigo esse sentimento, jogo a rede para ver se capto alguns acordes e palavras. Para mim, compor é tipo caçar borboletas no inconsciente ou num lago com peixes misteriosos, as melhores ideias estão sempre submersas. Então, tento emergir esses sentimentos em forma de reverbs, delays, etc. Depois vou organizando um aglomerado de imagens e acordes, como num baile de máscaras e, de repente, algumas palavras surgem na multidão e formam figuras como o Doutor Ervilha, ou surge um Olhar de neon, ou os Deuses de aço, Fata Morgana, Coração atonal, Alquimista, etc. Só tenho que bater à porta certa, porque a composição já está lá. Por isso eu não gosto da ideia de fazer música sob encomenda. Acho vazio. Não faz sentido pra mim. Sobre os instrumentos, desde 2010 não uso violão para compor. Ele não me dá esse lugar de experimentação de ambientes, mas pretendo gravar um álbum acústico em algum momento. Ano passado, me rendi e peguei meu primeiro smartphone. Quem me conhece sabe por quanto tempo mantive meu LG que a bateria durava uma semana. Acho absurda a ideia de estar 100% do tempo conectado. É ruim ser monitorado, mas hoje tudo se faz pelo celular, então aproveitei para gravar algumas frases soltas e melodias que apareceram nele também. Coloquei alguns aplicativos de gravação. Compus parte da letra de Mistérios em seu divã, com o celular. Inclusive, durante esse tempo, recebi muitas propagandas de clínicas e psicólogos no Instagram.

CONTINENTE Você recebe influências de outras formas de arte como inspiração para compor? Quais?
ZECA VIANA Com certeza tenho muita influência do cinema, do rádio (principalmente nos anos 80 quando comecei a gravar K7s), da sonoridade dos equipamentos (ruído de VHS, essas coisas), do mundo pré-internet e de um certo imaginário da cultura pop brasileira até o final dos anos 1990. Talvez seja uma mistura de Festa Ploc, Nietzsche, Iuri Gagarin e Cocteau Twins. Já descreveram o som que eu gravo como uma espécie de “nostalgia futurista”. Achei legal. No campo do cinema, procuro não só assistir aos filmes, mas também estudar a linguagem e o processo de produção de diretores como Fritz Lang, Akira Kurosawa, Tarkovsky, Fellini, David Lynch, movimentos como a Nouvelle Vague, filmes de baixo orçamento sci-fi dos anos 1960, videoclipes caseiros, gosto daquelas coisas que são toscas e geniais ao mesmo tempo. Além disso, tem o expressionismo alemão, cinema russo; me interesso muito pelo Simbolismo também, tanto na poesia, quanto na pintura, abstracionismo, surrealismo, suprematismo, etc. Como professor de Filosofia, também sou fascinado pelos pré-socráticos, figuras como Heráclito, Demócrito, e pela mitologia grega (que, para mim, estrutura o imaginário e a política ocidental) na Teogonia de Hesíodo, as batalhas dos Titãs, Chronus, Tártaro, não tem coisa mais psicodélica. Acho que tudo que mexe com a esfera do imaginário me interessa, no campo do símbolo, da mística, dos arquétipos. Já temos que pagar tantos boletos, correr atrás de desentupir canos, cumprir prazos, fazer reparos na casa, lidar com um monte de burocracia, então, na hora de compor, prefiro criar uma realidade própria através da arte e descansar um pouco a cabeça. A música tem esse lado de suspensão temporária para a gente suportar o dia-a-dia, como nos spirituals, no blues, etc. A questão política no país também está saturada e insuportável. Então, de certa forma, o home studio se transforma nesse disco voador interdimensional que embarco quando quero me reconectar comigo mesmo.

CONTINENTE Depois de mais de dez anos lançando discos, qual a impressão que você tem de ser um artista independente neste mercado?
ZECA VIANA Bom, hoje em dia, me sinto desconectado do mercado independente como músico e não acho que isso seja ruim. Pelo contrário. Foi uma escolha por liberdade e estabilidade. Venho participando de bandas desde 1996. Tive vários empregos paralelos: trabalhei na Varig, no IBGE, vendendo livros, fiz festas, etc. Fora isso, foram praticamente dez anos vivendo de música. Tive diversos projetos: Zero Kelvin, Nebulosa, Polidriver, Asteróide B-612, Volver, Labirinto, entre algumas trilhas e participações. Era um aperto sobreviver de música: contas atrasadas, sem plano de saúde, dinheiro contado, etc. Em 2013, decidi investir na carreira acadêmica e, em 2018, parei de tocar ao vivo, novamente para focar 100% nos estudos. Para mim, foi a melhor escolha. Já estou com 38 anos, ainda sou jovem, mas não tanto para “viver de rock”. Faz tempo que não é mais minha praia. Hoje em dia, sou professor, pesquisador e produtor, e também sou músico. No mercado independente existe uma rede onde as coisas funcionam, são promovidas, conheço de perto. O que o público não sabe é a quantidade de dinheiro que deve ser investida para que um artista possa circular, aparecer, tocar, fazer contatos. Muitos desses artistas são de famílias ricas, estão seguros, caso aconteça qualquer coisa, o que está longe de ser o meu caso. Outros, que não são abastados, precisam do apoio de produtores, redes de contato, enfim. Como qualquer produto, para dar certo, tem que ter investimento. Só para gravar um bom disco, uma banda gasta fácil 30 mil reais. Eu sou apenas um cara que grava em casa, então é difícil competir no mercado de shows em Sesc, Itaú Cultural, etc. Faz alguns anos que eu desisti desse métier. Hoje trabalho tranquilo e continuo gravando meus disquinhos sem pressa. Pretendo continuar lançando até quando a saúde permitir. No mínimo, acho que consigo deixar uma boa discografia, que é a vontade de qualquer pessoa que gosta de gravar.

CONTINENTE O que implica compor, gravar todos os instrumentos e produzir um disco inteiro sozinho? Quais os prós e os contras?
ZECA VIANA É extremamente prazeroso, mas é um processo também bastante árduo. Bom, aprendi a tocar um pouco de teclado ainda criança, depois aprendi um pouco de violão e, com 14 anos, comecei a tocar um pouco de bateria no sofá de casa, e finalmente ensaiei numa bateria de verdade num estúdio de bairro, tudo de forma intuitiva. Desde então, venho praticando esses instrumentos: toquei guitarra no Asteróide B-612, bateria na Volver, baixo na Labirinto, etc. Não sou virtuose, nem pretendo ser, mas pude ver uma boa parte do funcionamento de uma banda (ao vivo e em estúdio), e principalmente, ouvir esses instrumentos de lugares diferentes. Entender suas funções e seus lugares espaciais no espectro sonoro. Ao mesmo tempo em que comecei a mexer com teclado quando era criança, já gravava algumas fitas K7 com um gravador que meu pai me deu. Seu Viana gostava muito de trilhas sonoras, Ray Conniff, bolero, etc. Então eu gravava música de rádio, gravava brincadeiras, etc. Tenho algumas dessas fitas. No começo dos anos 2000, vi que existia a possibilidade de gravar em casa no estúdio do meu xará Júnior Vianna, em Engenho Velho, na cidade de Jaboatão, e, desde então, venho estudando produção musical. Nunca tive MacBook, nem tenho grana para comprar, então utilizo equipamentos que são bem acessíveis mesmo: sistema Windows, Reaper, notebook Samsung, coisas normais. A produção de um disco envolve diversas etapas que precisam ser bem pensadas; pré-produção, gravação, mixagem, masterização, e isso, dependendo de onde se quer chegar, pode precisar ser refeito várias vezes. Depende das referências musicais, de como se quer soar. Uma mixagem de uma banda punk pode ser bem diferente de um grupo de pífanos e assim por diante. Por um lado é uma terapia, porque você tem que conversar com você mesmo durante horas, semanas, meses. Desfrutar a solitude, aquietar a mente e buscar trabalhar a criatividade. Criar a própria sonoridade do zero, tocar todos os instrumentos, mixar, é um trabalho grande. Por outro lado, requer muito estudo sobre frequências, natureza do som, mixagem, compressão, reverb, enfim, é preciso disciplina para dominar as ferramentas que você tem em mãos. Não é nada de outro mundo, não sou engenheiro de som, mas aqui, no home studio Recife Lo-Fi, tenho equipamentos simples que suprem minhas necessidades. Basicamente aqui uso um teclado midi, uma bateria eletrônica midi, duas guitarras, um baixo, dois microfones, uma interface, um notebook, um fone de ouvido e dois monitores de áudio. Com isso, dá pra gravar um disco; pelo menos, um disco meu, que é o objetivo.

CONTINENTE A propósito, quais os prós e contras de ser membro de uma banda e de ser artista solo?
ZECA VIANA Essa é uma ótima chance de esclarecer, porque muita gente não entende bem a diferença. E de fato ela é enorme. Uma banda ou grupo, de uma forma ou de outra, é a confluência de muitas ideias e expectativas diferentes que devem caminhar em uma mesma direção. Uns querem ficar famosos, outros só querem tocar. É preciso uma certa química para a coisa funcionar bem. Ok, muitas bandas têm um líder, mas, na grande maioria das vezes, é como um time, uma equipe que deve trabalhar em conjunto. E a gente sabe que o trabalho em equipe nem sempre é fácil. Uma banda pode rachar as despesas, se ajudar mutuamente, encontrar diferentes pontos de apoio (parentes, conhecidos, contatos, etc.). De certa forma, em termos estruturais, é mais confortável estar em uma banda. Por outro lado, as diferenças de opinião podem desfazer o conjunto, assim como o tempo e a falta de objetivos. No caso do projeto solo, é um desafio gigante porque é você e você mesmo. É uma carga grande nas costas. Além de poder soar um pouco “pretensioso” no início, se não souber trabalhar bem sua própria comunicação. Mas, passei por tantas bandas, tantas fases, diferenças de gostos, etc., que decidi arriscar fazer meu próprio som. No início, achei uma coisa meio sem rumo, mas acabou dando certo e consegui encontrar uma linguagem. O primeiro disco foi bem-aceito na época, abriu portas para alguns festivais e muita gente embarcou na ideia e tive ótimas experiências ao vivo com banda, mesmo sendo solo. Músicos e amigos como Cacá Amaral, Fernando Barreto, Carol Pudenzi, Igor Taborg, Thiago Régis, Mathias Brito, Tomás Brandão, Bruno Motta, Robson Bicudo, D Mingus, Zé Gleisson, Zé Mário, Kléber Croccia, Ad Luna, Ingno menino selvagem, Alexandre Xaréu, o pessoal da Sargaço Nightclub, enfim, todos de uma forma ou de outra colaboraram com meu projeto solo. Dá pra ver que não é algo tão “solo” assim. Afinal, consegui ter muitas bandas em um único projeto.

CONTINENTE No disco Estância tem músicas que flertam com o som dos anos oitenta, como Sweet Sixteen e Hotel Malibu. E em TRËMA, com Fata Morgana e Alquimista. Como é a sua relação com a música dos anos 1980?
ZECA VIANA Já pensei bastante sobre isso e acho que é muito espontâneo, simplesmente acontece dessa forma. Não é algo que eu planeje “soar como anos 80”. É muito natural, porque gosto mesmo dessas sonoridades: bateria eletrônica Roland TR-808, teclado Yamaha DX7, etc. Desde o primeiro disco, Seres invisíveis, é assim, com faixas como Garota Non Stop e outras. Certa vez, o jornalista Cláudio Szynkier disse que eu fazia uma ponte entre a psicodelia dos anos 1960 e essa coisa esfumaçada dos anos 1980. Inconscientemente, acho que é por aí mesmo. Eu gosto muito de Echo & The Bunnymen, Siouxsie and the Banshees, Sugar Cubes, A-HA, Duran Duran, gosto de muita coisa farofa mesmo dos anos 1980 também. Adoro aquelas baladas “love song”, que eram traduzidas ao vivo na rádio. É o som da minha infância, tenho uma relação extremamente afetiva com essa sonoridade. Até criei uma festa chamada Assustado Anos 80, com Kamila Ataíde. Fizemos algumas edições, é bem divertido. Gosto muito de shoegaze também, gosto do Ride, da cena Madchester, dos Stone Roses, enfim. Acho que isso acaba refletindo como uma influência bem marcante.

CONTINENTE O que você acha da nostalgia de diversos artistas contemporâneos que tentam recriar a sonoridade de décadas passadas? Você acha que isso impede de criar uma sonoridade que marque esta década no futuro?
ZECA VIANA Acho que produzir uma música no presente pensando em como ela vai soar no futuro pode gerar bastante ansiedade. Acredito na liberdade como norte criativo. Os artistas mais jovens, inclusive, são de uma geração diferente da minha. Nasci em 1982. As gerações passadas sempre tiveram que provar algo, mostrar alguma posição forte, etc. Acho que hoje em dia muita gente já cresceu com a internet nessa enxurrada de informações, imagens, gifs piscando, músicas de graça e aos montes, acho que as pessoas querem frear esse ritmo. Não à toa a playlist “lo-fi hip hop” tem tantos ouvintes. Música para relaxar. Acho que existem novas sonoridades surgindo e morrendo o tempo todo, muitas não duram. O mercado está totalmente diferente também. Mas minha esperança sempre é que uma nova sonoridade venha da música regional de raiz, algo de verdade, feito nas margens dos grandes centros, ainda tem muita coisa para ser explorada nos ritmos tradicionais. O Brasil se conhece muito pouco.

CONTINENTE Com gravações em home studios cada vez mais sofisticados, você acha que o conceito do lo-fi pode se perder? Seu disco tem uma sonoridade excelente. Você o classificaria como lo-fi?
ZECA VIANA O termo lo-fi é relacional, ele precisa sempre do seu par oposto, o hi-fi, para se relacionar no espectro da fidelidade, que é histórica, móvel, flexível. Nossos ouvidos são viciados na nossa própria época, então é difícil se deslocar para perceber isso. Principalmente no Brasil que não tem tradição de áudio. Mas é só ouvir gravações nacionais de uns vinte anos atrás. Algumas podem ter sido gravadas em estúdios profissionais, hi-fi na sua época e hoje soam “datadas”, abafadas, ruidosas. É só ver o que o “loudness war” trouxe para a música. Se a gente pegar o meu disco TRËMA e ouvir lado a lado com um disco gravado recentemente no estúdio Midas ou comparar com o especial do Dia dos Namorados da Som Livre (para ficar no Brasil), a gente vai perceber que a diferença é grande. Mas justamente essa diferença que pauta a linguagem de produção. Claro que não só os equipamentos deixam seus “rastros”, eles não são totalmente determinantes, mas o modo de fazer e o sentido ajudam essa adjetivação do “lo-fi”. Uma mesa SSL (Solid State Logic) AWS 900 custa US$ 47 mil. O estúdio Midas utiliza três mesas SSL de diferentes categorias. Eu uso uma interface M-Audio M-Track que me custou R$ 700. Acredite, isso pode fazer bastante diferença no áudio final. Sem falar na direção musical, isolamento acústico, microfones, etc. E, claro, ainda tem a questão da formação técnica dos profissionais. Eu sou um cara que aprendeu lendo sozinho, nunca fiz um curso de áudio. Um engenheiro de áudio e produção musical formado pela Berkeley pilotando uma SSL provavelmente vai tirar um som diferente da minha M-Audio M-Track de dois canais. Acho que o TRËMA consegue sair um pouco do espectro lo-fi mais imediato por um esforço muito grande de mixagem, mas, ainda assim, antagoniza com essas produções high-end que monopolizam as rádios no país.

CONTINENTE Lançar esse disco em plena quarentena fez alguma diferença pra você, levando em consideração os lançamentos dos seus discos anteriores?
ZECA VIANA Acho que combinou com o meu processo de produção, porque eu já estava em uma espécie de quarentena voluntária fazia um tempo. Praticamente dois anos. Venho trabalhando bastante online desde antes da pandemia; estudando, pesquisando, gravando, então uma coisa puxou a outra. Fiz toda minha pesquisa de mestrado sem precisar sair de casa porque o acesso hoje ficou muito mais fácil; chat ao vivo, entrevista via áudio de WhatsApp, etc. Inicialmente eu tinha pensado em fazer o lançamento do disco no meu aniversário. Nunca faço festa mesmo, então faria o lançamento para comemorar. A pandemia chegou e achei melhor manter a data. Então lancei e acho que a recepção está sendo muito positiva, estou recebendo um ótimo feedback. Aliás, se eu fosse esperar para lançar, provavelmente só seria no ano que vem. O álbum já estava pronto, então quis lançar até para poder me dedicar a novos projetos do disco, como o videoclipe de Fata Morgana, que está para sair.

CONTINENTE Você prefere o palco ou o estúdio? Por quê?
ZECA VIANA Acho que prefiro o estúdio, porque é onde eu consigo criar, registrar, modelar as ideias. Já tive muitas experiências legais com palco, tanto no Brasil, em festivais como Abril Pro Rock, Coquetel Molotov, Bananada, Porão do Rock, quanto nos EUA e Canadá no NXNW. Depende muito de onde você está, do comprometimento da equipe que está fazendo o som, porque o trabalho que dá para levantar uma banda para tocar ao vivo é grande. Apesar de ter tido ótimas experiências, é comum a gente ter problemas estruturais com locais menores: mesa de som, chiados diversos, ruídos de rede, caixas saturados, mixagem mal feita, enfim. Tentamos contornar da melhor forma. É claro que a energia de tocar ao vivo é única, a adrenalina, um show bem-feito vale por uma sessão de terapia. Mas um mal feito também. Então, nessa roleta russa, hoje em dia prefiro ficar no estúdio. Uns 10 anos atrás, com certeza iria preferir tocar o máximo ao vivo que eu pudesse.

CONTINENTE Você passou cinco anos em SP. Por que resolveu voltar ao Recife? Morar nas duas cidades mudou alguma coisa na sua inspiração, na sua sonoridade e na forma de enxergar o mercado musical?
ZECA VIANA Voltei para o Recife por conta de problemas de saúde da minha mãe. Já estava estabelecido lá, mas resolvi voltar por conta disso e recomecei quase do zero aqui no Recife. No final das contas, foi maravilhoso voltar, dei uma guinada na minha vida e estou trabalhando hoje com o que eu gosto, graduado, com mestrado, no doutorado. Era o que eu queria mesmo. Na verdade, minha relação com São Paulo vem de bem antes. Meu pai nasceu no interior de São Paulo, em Garça, e tenho tias, primos, etc., que moram na cidade de São Paulo. Sou filho único, então, quando era criança, já passei algumas férias em Osasco e Santana para conhecer essa parte da família. Ter ido pra lá também foi algo meio natural, queria trabalhar com música e a cidade realmente me abriu muitas portas, conheci muitas pessoas incríveis e gravei meu segundo disco solo lá, Psicotransa, na querida Casa do Mancha, com produção de Diogo Valentino, da Supercordas. Foi uma experiência incrível conhecer e conviver com várias bandas como Naaxtro, Firefriend, Los Porongas, Vivendo do Ócio, Hierofante Púrpura, etc. Toquei muito com meu projeto solo lá, o pessoal do TramaVirtual se aproximou muito de mim, o que me rendeu também a indicação ao Aposta MTV e dois clipes na programação da madrugada. Tenho bastante orgulho disso, realmente a MTV deixou um grande buraco na música independente nacional. Para o meu projeto solo, São Paulo foi decisiva, porque foi a cidade que me acolheu neste primeiro voo sozinho.

CONTINENTE Quais os seus planos com a música a longo prazo? Você está produzindo discos de outros artistas. Esse seria um outro caminho a trilhar?
ZECA VIANA Pretendo trabalhar mais ministrando oficinas de gravação, ensinando as pessoas a gravarem em casa com poucos recursos. Já dei essas oficinas pelo Coquetel Molotov em Belo Jardim, pelo Festival de Inverno de Garanhuns também, em Camaragibe em parceria com o pessoal do Cultura Camaragibe, aqui no Recife também. Os resultados foram ótimos. Daí, agora quero fazer isso de forma online, assim pessoas do Brasil todo podem participar. Também já trabalhei gravando singles para novos artistas, como Cassiola e Sargaço Nightclub, e, finalmente, vamos estrear a segunda temporada do programa Recife Lo-Fi, pela Frei Caneca FM, projeto produzido em parceria com o grande produtor Alexandre Melo e aprovado pelo Funcultura. Vou gravar os programas aqui no home studio, vamos garimpar muita coisa daqui de Pernambuco, principalmente do interior do estado. Nos aproximamos do pessoal do coletivo Mangaio, que faz uma movimentação maravilhosa no Sertão do Pajeú em cidades como Serra Talhada, Afogados da Ingazeira, Triunfo e São José do Egito. Esse ano de 2020 o Recife Lo-Fi completa dez anos de existência e vamos comemorar em grande estilo, mesmo que virtualmente. O programa é algo que eu gosto muito de fazer porque me conecto com pessoas do país todo, adoro rádio, então a segunda temporada do programa promete bastante.

CONTINENTE Você tem uma carreira acadêmica também. Como pensa em conciliar as duas áreas?
ZECA VIANA Na verdade elas já estão conciliadas. Meu mestrado em Sociologia na UFPE foi trabalhando com o processo de produção de artefatos sonoros produzidos em home studios aqui da região metropolitana, onde mapeei alguns músicos que gravam em casa. Registrei os processos de produção, equipamentos, técnicas de gravação, isolamento acústico, etc. Pretendo lançar um livro com o resultado desse trabalho, ficou muito interessante. E agora, no doutorado, estendi a pesquisa para um âmbito nacional e internacional, envolvendo home studios de artistas independentes do Brasil, em cidades como Porto Alegre, Rio de Janeiro etc, e em Portugal, em cidades como Coimbra, Braga e Lisboa.

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial da revista Continente e colunista da Continente Online.

 

Publicidade

veja também

"'Tatuagem' tem um lado muito triste, que desemboca no 'Fim de festa'”

“Amadurecimento é algo que a gente vai vivendo”

“O samba é a célula mater da música popular brasileira”

comentários