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Entrevista

"A inversão que me interessa não é a da vingança"

A cineasta Gabriela Amaral Almeida fala sobre o seu primeiro longa-metragem 'O animal cordial', que flerta com o terror e tem previsão de estreia em março no Brasil

TEXTO Cesar Castanha

15 de Janeiro de 2018

A cineasta Gabriela Amaral Almeida

A cineasta Gabriela Amaral Almeida

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online | jan 2018]

O ciclo de festivais
brasileiros de cinema em 2017 nos deixou, para o circuito comercial do país em 2018, uma variedade de obras originais, particulares e, no melhor dos sentidos, estranhas. As boas maneiras, com direção de Juliana Rojas e Marco Dutra, Era uma vez Brasília, de Adirley Queirós, e O animal cordial, de Gabriela Amaral Almeida, são exemplos que circularão ainda este ano pelas salas de exibição do Brasil, trazendo uma investida do cinema nacional na revisão de uma estética de gênero. A fantasia, a ficção científica e o terror indicam, certamente, caminhos por onde esses filmes se comunicam, mas são também categorias a serem reinventadas por cineastas comprometidas(os) com propostas estéticas singulares e uma consciência histórica e política do Brasil contemporâneo.

Assim, a aproximação de O animal cordial, em particular, com subgêneros do cinema de horror – como o torture porn (filmes geralmente focados numa tentativa de escapar do perigo, expondo o sofrimento dos personagens de modo muito gráfico, como a série Jogos mortais) ou o slasher (em que um assassino, geralmente oculto, persegue e mata os personagens um a um, como a série Pânico) – dá-se a partir de uma reconsideração do cinema de gênero como um todo. Os personagens e suas motivações são priorizados à estrutura narrativa habitual e aos estereótipos que fazem deste um gênero reconhecido. Logo, o terror não é a base de todo o filme, mas um caminho por onde a diretora Gabriela Amaral Almeida, em seu primeiro longa-metragem, apresenta a experiência de seus personagens.

São também esses personagens que trazem para o filme as tensões políticas de uma cidade como São Paulo. Nas interações entre eles, revelam-se as relações de classe e gênero que culminam em dinâmicas de poder e resistência. Pelos espaços do filme, os de um restaurante decadente de alta gastronomia, ressoam a expectativa em torno das imprevisíveis eleições presidenciais que se aproximam e também as contradições ideológicas da classe média, que tem tido, na construção deste momento político, um papel decisivo.

O proprietário do restaurante é Inácio (Murilo Benício), um homem branco tomado por rancor diante da própria fragilidade. Depois de uma tentativa de assalto ao local, Inácio faz de reféns clientes, funcionário e assaltantes. Murilo Benício interpreta algo como um monstro ordinário, um assassino banal, motivado por defesa do seu espaço de poder, posto em risco não apenas pelo assalto, mas também por sua esposa e seu chefe de cozinha, que se recusam a ceder diante dele. 


Sara (Luciana Paes) e Inácio (Murilo Benício) em O animal cordial.
Foto: Divulgação

Aliada a Inácio está a garçonete do local, Sara (Luciana Paes), talvez a personagem mais complexa do filme. Conduzida pelo trabalho impressionante de Luciana Paes, Sara habita as fronteiras daquele universo de horror. A garota não é exatamente uma vítima, nem precisamente um algoz. A sua relação com Inácio é também ambígua. Ela não adere totalmente às ações dele, mas tampouco as recusa. A personagem embaça os limites de caráter que são geralmente pré-definidos em um filme do gênero.

Estereótipos da cidade de São Paulo são também revisitados em outros personagens, com destaque para Verônica (Camila Morgado), uma mulher de classe média alta, e Djair (Irandhir Santos), o trabalhador nordestino que presa pelos próprios cabelos compridos e se apega às receitas de família. Eles são vítimas resolutas. Sua força e obstinação zombam da pretensa superioridade de seu carrasco.

O animal cordial, com estreia prevista para março, é um filme que encontrará seu espaço entre as intervenções políticas esperadas para este ano. A revista Continente conversou com a diretora Gabriela Amaral Almeida sobre a obra. Confira a seguir.

CONTINENTE Seu filme tem algo do gênero do torture porn, como a violência muito presente, mas ele se diferencia muito do que é feito nesse gênero. Quais são suas referências para o modo como você usa a violência no filme?
GABRIELA AMARAL ALMEIDA As minhas maiores referências são três filmes do Robert Altman: Uma mulher diferente (1969), James Dean, o mito sobrevive (1982) e Imagens (1972). São todos filmes centrados em personagens e questões densas, que flertam muito bem com um tipo de suspense interno, da ordem das relações. O Altman trabalha com uma encenação farsesca, enquanto o torture porn tem muito a ver com o realismo. E o que me interessava para O animal cordial era um sangue menos realista e mais alegórico. Ninguém sangra como os personagens desse filme. Trabalhei com o maquiador do filme, André Anastácio, referências como Mario Bava e Dário Argento, buscando um sangue poético. Na chave do realismo, o filme perde o interesse para mim. Os atores têm uma encenação cinematográfica, algo como os personagens de R. W. Fassbinder e Ingmar Bergman. Eu sempre ouço que Quentin Tarantino também está presente. E talvez seja no sentido de fugir do naturalismo. Mas os personagens de O animal cordial são mais pra dentro, mais internos. Os personagens do Tarantino partem da comunicação, são mais pra fora. São dois caminhos distintos e válidos para se trabalhar essa encenação.

CONTINENTE O filme funciona muito bem alegoricamente. Você buscou essa alegoria ou ela surgiu depois?
GABRIELA AMARAL ALMEIDA O que motivou o filme foi um evento real, que é a quantidade de assaltos a restaurante na cidade de São Paulo. Isso já aconteceu, inclusive, com amigos próximos. O alegórico está na maneira como eu entro no gênero, esse cinema que pede uma expectativa. Você espera marcas do gênero que no filme estão lá subvertidas. Isso não é buscado, eu parto dos personagens, e os personagens pedem essas subversões. Como não há um interesse em reproduzir uma mecânica do gênero, esses pontos de reconhecimento, essas marcas, também surgem a partir dos personagens. Vou mencionar aqui uma questão que, de fato, busquei: o personagem só mata homens. Isso é uma subversão do subgênero do slasher que vem da minha consciência de uma tradição misógina no terror. O único assassinato de uma mulher no filme é executado sob o comando de outra mulher, que é Sara, a protagonista. E aí já temos outra subversão, porque, diferente do slasher usual, a protagonista é uma aliada do assassino, que, na tradição do gênero, é sempre um homem. Ela nutre um sentimento de amor por ele. Para ela, não há um monstro. Outro modo de subverter o gênero é parar a ação da narrativa com cenas em que uma personagem vai limpar o chão e outra, como o Djair, que está lá como refém, vai falar de uma receita. Não há espaço para essas cenas no torture porn, é tudo sobre as tentativas de escapar. Em O animal cordial, você reconhece do gênero o sangue, a arma, mas o drama está bem além disso.


O ator pernambucano Irandhir Santos (esq.) vive Djair no filme.
Foto: Divulgação


CONTINENTE É interessante o que você falou do assassino do slasher ser sempre um homem. Porque mesmo quando é uma mulher, como em Sexta-feira 13 ou alguns filmes da série Pânico, é uma mulher disfarçada de uma figura masculina.
GABRIELA AMARAL ALMEIDA Sim. Mas também não me interessava subverter pela mera inversão, sabe? Quero dizer que a inversão que me interessa não é a da vingança. Nesse espaço de O animal cordial, os vilões se comem. A subversão não está na inversão de polos. Não se trata de usar as armas do inimigo, mas de morrer com dignidade. E isso é encontrado através dos personagens. É por isso também que, para mim, o Djair, por exemplo, é um personagem tão importante.

CONTINENTE Sou fascinado por Sara, a personagem da Luciana Paes. Gosto principalmente do monólogo dela sobre o mar, perto do final do filme. Você pode falar um pouco de como a personagem e esta cena foram concebidas?
GABRIELA AMARAL ALMEIDA O arco da Sara é de uma história de amor, não de horror. Na preparação de elenco, nunca falamos em filme de horror. Como o gênero passa a impressão de algo que já está codificado, é preciso trabalhar fora dessa chave. Então passei, com a personagem, por todas as fases do romance: o flerte inicial, o momento do primeiro beijo e, enfim, o abuso, a violência que ela sofre de Inácio. Por mais que você ame a pessoa, tem uma hora que ou você respira o oxigênio da vida, ou perde o ar. E o monólogo se refere a esse momento da personagem. É como se Sara dissesse: “Eu imaginava que seria diferente, mas não é”. Ela se reconecta ali com o amor platônico. Quando ela se imagina com ele perto do mar, na praia, ela mesma diz: “Isso é dentro de mim”. O homem que corre com ela na praia está dentro dela. E ela vai falando tudo no presente, como se estivesse acontecendo naquele momento dentro dela. “O vento sopra o meu chapéu”, ela diz. Sara foi a primeira personagem que me veio. Ela é deslocada afetivamente no mundo. Esse é o deslocamento da mulher servil, que fala baixo, que tem que ficar no seu lugar. O tour de force dela e de Inácio, que são os protagonistas de O animal cordial, é encenar um para o outro essa projeção do que deveria ser um homem e uma mulher, papéis que os dois são cobrados a interpretar. E, no fim das contas, você tem dois delinquentes encenando uma história de amor, porque eles não têm referência do que deveriam ser um para o outro.

CESAR CASTANHA é jornalista, crítico de cinema e autor do blog Milos Morpha.

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