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Entrevista

“O jazz tem um sentido de libertação”

Depois de 'Sangue negro', Amaro Freitas vem com 'Rasif', que transcende, no piano, ritmos como o coco e o maracatu e faz dele um dos grandes nomes do jazz brasileiro contemporâneo

TEXTO GG ALBUQUERQUE
FOTOS E VÍDEO ERIC GOMES

17 de Dezembro de 2018

Ensaio com Amaro Freitas foi feito na oficina Lipianos, em Peixinhos, Recife

Ensaio com Amaro Freitas foi feito na oficina Lipianos, em Peixinhos, Recife

Foto Eric Gomes

[conteúdo exclusivo Continente Online | dez 2018]

A vida de Amaro Freitas mudou radicalmente nos últimos dois anos. Depois de muito tempo tocando em diversos restaurantes do Recife, em 2016 o pianista venceu o Prêmio Instrumental da Mimo e despontou seu trabalho autoral com o álbum de estreia Sangue negro. Agora, aos 27 anos, o músico deixa de ser uma revelação e consolida-se como um dos principais nomes do novo jazz brasileiro. Lançado pelo selo inglês Far Out Recordings, seu novo álbum, Rasif, o levou a uma turnê que passou pelas mais célebres casas de jazz de Portugal, Espanha, Alemanha, França, Suíça, Inglaterra e Argentina.

Rasif consolida a proposta musical Amaro de cruzar elementos da cultura popular afro-brasileira com o jazz em uma única espiral sonora. O disco conecta ritmos populares do Nordeste (como o coco, a ciranda, o baião e o maracatu) às técnicas experimentais (atonalismo, dodecafonismo, polirritmia) de nomes como Craig Taborn, Thelonious Monk, Moacir Santos e Hermeto Pascoal.

Ao lado de Jean Elton (baixo acústico) e Hugo Medeiros (bateria), mais as participações de Henrique Albino (flauta, saxofone e clarone), Amaro Freitas explora as capacidades percussivas do piano em complexos padrões matemáticos. Seus ritmos imprevisíveis e hipnóticos misturam diferentes tipos de compassos e imprimem a sensação surrealista de uma temporalidade dilatada — como se estivéssemos ouvindo os relógios derretidos pintados por Salvador Dalí.

Nesta entrevista, Amaro Freitas comenta sua turnê internacional, fala sobre os dilemas do mercado do jazz e as potências políticas presentes em seu trabalho. Para o músico e compositor, são os diversos referenciais afros e a complexidade do seu som que constituem a radicalidade de sua arte. “Minha música é minha arma”, sentencia.



CONTINENTE Como foi seu primeiro contato com a música na periferia do Recife? Como o piano apareceu na sua vida?
AMARO FREITAS Os meus pais vêm de uma família humilde e queriam dar um futuro melhor para os filhos. Eles viraram evangélicos e acreditaram que esse caminho seria o melhor pra mim e minha irmã. Minha mãe sempre foi uma pessoa de conversar e orientar muito – o sonho que tinha de ver os filhos vencerem, de entrar na universidade – e meu pai sempre foi um cara muito musical. Moramos em Cavaleiro e ele tinha uma banda que tocava música tipo The Fevers em bares, mas quando ele se converteu, deixou a banda e passou a trabalhar com música na igreja. Primeiro, o meu pai me introduziu à bateria, uma bateria eletrônica que tinha na Assembleia de Deus, do Alto do Progresso, que a gente ia. Eu tinha 11 pra 12 anos. Mas todos os amigos eram louco pra aprender bateria, tinha muita gente. Meu pai tinha um teclado pequeno, que nem sensibilidade, e falou: “Tu num quer aprender o teclado, não?”. E ele me incentivou muito a aprender o teclado. Me levou a um barbeiro no morro onde a gente morava e esse cara era músico, entendia um pouco de música. Então, eu ia pra lá com um caderninho e, enquanto cortava o cabelo e a barba da galera, ele me ensinava o que era uma escala, falava sobre acordes. Aprendi muita coisa com esse cara.

CONTINENTE E como aconteceu a transição da música evangélica para o jazz?
AMARO FREITAS Quando eu tinha 15 anos, ganhei um DVD de Chick Corea. Aí eu fiquei doido porque, até então, só tinha tido contato com música na igreja. Fiquei doido com aqueles acordes, aquela sonoridade, como ele fazia aquilo. Passei a escutar aquele DVD todo dia. Em paralelo a isso, entrei no Conservatório (Pernambucano de Música). Só que eu só consegui ficar lá por seis meses, porque meus pais não tinham condições de pagar. Foi aí que bateu a consciência: eu preciso trabalhar pra poder ser o que eu quero ser. Eu já sabia que queria ser músico desde quando mudei da bateria para o teclado. Então, fui trabalhar no call center e fiz um teste na escola de música Tritonis, onde consegui passar e comecei a estudar harmonia durante um ano, sendo bancado por uma bolsa da Chesf. Depois, continuei estudando lá com o dinheiro que juntei do call center. Aí toquei em banda de sertanejo, banda católica, dei aula em projeto social e fui conhecendo os caras da cena, dando os meus pulos. Foi quando comecei a tocar em restaurantes, o que começou a organizar minha vida financeira, por volta de 2012. Morei em Gravatá durante seis meses, trabalhando, estudando, juntando uma grana, comprando piano elétrico. Quando voltei para o Recife, fui trabalhar na pizzaria Atlântico e entrei no curso de produção fonográfica da Aeso. Durante dois anos, fiquei numa rotina de 7h30 às 11h estudando na Aeso; de 12h às 15h tocando na pizzaria; de 15h à 19h não dava pra voltar pra casa; das 19h às 23h, tocava de novo na pizzaria. Eu passava o dia na rua, chegava em casa quase 1h da manhã todo dia. Depois, o pianista do Mingus morreu e eu assumi o restaurante, primeiro com uma banda, depois como um trio e depois um duo, com Jean Elton [baixista]. A gente se juntou a Hugo Medeiros [bateria] e aí começou o processo de Sangue negro, que é o disco que mudou a minha vida (ouça completo aqui). O trabalho autoral me permitiu largar todas essas coisas e me concentrar na minha música.



CONTINENTE Como você analisa a passagem de Sangue negro para Rasif? Quais as diferenças?
AMARO FREITAS Eu poderia dizer que Sangue negro, antes de mais nada, é a prova de que é possível. A gente conseguiu provar que é possível gravar um disco original, um jazz brasileiro com um novo ar, tocando ritmos tradicionais do Brasil. Em Rasif, viemos com um nível de intimidade maior e com um trabalho de pesquisa mais firme na cultura brasileira, trabalhando muito os padrões rítmicos e traduzindo essa cultura de uma forma diferente. Por exemplo, em Trupé, eu pego a célula rítmica do coco, que as pessoas tocam pisando com a sandália em cima do tablado de madeira, e começo a tocar essa célula no piano, criando uma isorritmia. Crio a música a partir dessa célula, e não da canção. Vou diretamente no ritmo e transformo esse ritmo em melodia.

CONTINENTE Você acaba de voltar de uma turnê pela Europa e de shows pela Argentina apresentando Rasif. Embora sua música seja reconhecida como jazz, ela tem vários elementos regionais do Nordeste. Como o público do exterior recebeu esse som?
AMARO FREITAS O Sangue negro ainda tem um pouco do que a gente diria que é o jazz brasileiro, o samba jazz. O segundo disco, Rasif, não tem samba jazz. Tem frevo, maracatu, ciranda, baião, coco e música sem rótulo (ouça álbum completo aqui). Isso foi meio que intencional, porque lá fora o Brasil tem essa coisa de ser conhecido pela bossa nova e o samba jazz, quando, na verdade, tem uma diversidade muito maior. Que bom que existem a bossa nova e o samba jazz, mas é como se lá fora não acompanhassem o que está acontecendo aqui. A turnê foi a oportunidade de levar uma coisa que, para nós, talvez seja exótica, mas que lá fora ainda nem chegou no cenário do jazz. Nas matérias que saíram nos jornais, falavam sobre esse Brasil rítmico e percussivo. E o público delirou. Alemães, com aquela cara séria, quando a gente começou a tocar, estavam gritando como se fossem adolescentes de 15 anos. Tocamos para um público de 40 a 50 anos, que supostamente está “preparado para esse tipo de música e que vai saber julgar seu som”. Tocamos para essa galera e eles se surpreenderam! Lembro de um alemão querendo me dar mil beijos, dizendo que a performance foi perfeita; de uns japoneses batendo cabeça em Mantra. Foi muito emocionante ver que a reação do público do início até o fim do show.



CONTINENTE O mercado internacional criou um fetiche pela world music, que, no fim das contas, é rótulo bem preconceituoso – tudo que não é europeu ou americano, é enquadrado no balaio da world music. Rasif parece justamente desmistificar essa imagem mercantilizada do Brasil bossa novista.
AMARO FREITAS Existe um mercado já preestabelecido no mundo e ele vai querer definir o que é exatamente a música de cada lugar. O mercado vai querer delimitar o que é cada país – o brasileiro tem que vir tocando samba jazz, o cubano tem que tocar salsa tradicional. Quebrar esses paradigmas é muito difícil porque já existe uma estrutura mercadológica forte do jazz no exterior. Fui entrevistado por um jornalista italiano e ele disse: “Cara, o teu disco quebra esse estereótipo da bossa nova; a gente sabe que, no mundo, o samba e a bossa são o que prevalece como a imagem brasileira”. Eu falei que a minha vida toda eu me posiciono com isso. Trabalhei para poder bancar um trabalho autoral, com as músicas buscando o que há de mais genuíno em mim, em conexões com os músicos que tocam comigo. A minha vida toda estou me posicionando para tentar levar adiante a música que me representa, que é um misto de música sem rótulos, improvisação e essa temática rítmica que mexe muito comigo — como Trupé, que escutei o Samba de Coco Raízes de Arcoverde, me emocionei e peguei a célula rítmica da sandália de madeira no tablado para compor a faixa. Poder trazer essa minha música, que é uma música original de Pernambuco, do Nordeste, do Brasil, e poder levar lá pra fora já me deixa feliz. Se eu puder quebrar um pouco desse estereótipo brasileiro de world music e abrir outros caminhos para nossa música, vou ficar mais feliz ainda.

CONTINENTE Parece o aspecto político da sua música é justamente assumir sua experiência como um homem negro, que vem da periferia do Nordeste e traz todas essas influências para fazer jazz que, embora seja um som de raízes negras, foi apropriada pelo mercado. Como você enxerga a potência política da sua música?
AMARO FREITAS Para a gente conseguir alguma coisa, a gente precisa ter voz. A gente sabe que o jazz tem essa relação com o negro, das manifestações e das festas, que tem uma relação muito grande com o que estava acontecendo com o frevo aqui em Pernambuco no mesmo período – essa coisa de ir pra rua, de festejar, de ter as agremiações. Hoje, o jazz virou uma marca de luxo. Se no meu festival tem jazz, quer dizer que a parada vai ser fina, elegante, com um frio adequado, pessoas intelectuais assistindo, um vinho, a família, carrões… Está totalmente associado a essa marca da sofisticação. Mas o jazz acabou sendo o caminho de música que escolhi. Foi a primeira música instrumental que eu escutei e, para mim, ela tem um sentido de libertação, de entrega em tempo real – quando improviso, estou desenvolvendo coisas que estudei, mas que estou sentindo agora. Esse tipo de música me fascina antes de qualquer atitude política ou de posicionamento. Mas eu percebi que realmente precisava ter um trabalho bom para poder ter voz. Sangue negro é nada mais, nada menos que: “Mermão, eu dei sangue pra fazer esse disco”. E a faixa tem uma estrutura em que toco claves afro no piano, depois a gente faz uma parte meio apoteótica de transição e depois a gente desemboca no bebop, que é um gênero feito por negros (John Coltrane talvez seja o grande nome), e eu queria fazer uma faixa que tivesse esses elementos de música negra presente. Só que o trabalho é original, bem-arquitetado, trabalha o frevo, o maracatu, o samba em outro lugar. E, agora, eu tenho uma voz. Aí eu posso dizer: “Escuta minha música e depois me escuta”. Porque eu não quero chegar em ninguém como coitadinho. Velho, eu não tenho que provar que sou capaz, porque eu sou capaz. Eu só não tive a oportunidade que os outros têm. Eu não tive o piano, o teclado, eu não tive a escola, eu tive que trabalhar no call center. Mas eu sou capaz, está aqui o meu trabalho.



CONTINENTE Certos artistas que trabalham sobre a negritude ou outras minorias reclamam que a imprensa e a crítica acabam limitando sua obra e só fazem entrevistas sobre “ser um negro na música”, por exemplo – não sobre a arte de fato. Rasif é um disco bem enérgico, por vezes violento, e você comenta sobre se afirmar através do próprio som. Fala um pouco mais sobre isso.
AMARO FREITAS Hoje temos vários movimentos negros que ficam falando para negros sobre temas e sofrimentos negros. A gente perdeu uma parada que Moacir Santos, Dom Salvador e várias outras pessoas tiveram, que é o subjetivo, fazer a pessoa pensar sobre você. Hoje tudo é muito direto. Isso é necessário, não estou desmerecendo. Mas, ao mesmo tempo que vira algo extremista, acaba ficando só naquele núcleo, não sai daquilo e não evolui. Parece que a gente [negros] não pode mais falar de amor, não pode ter uma vida boa. Tem que ser favelado, não pode ter uma roupa boa. Se Emicida compra um terno bom, ele é julgado, porque começou cantando rap e não poderia ter essa vida boa. Como assim, velho? Eu tô trabalhando para isso. Eu acho todo o movimento muito necessário, mas não pode virar coitadismo. Às vezes, eu fico pensando que a gente nunca tá pensando na condição humana, a gente tá pensando só na gente. “Ah o negro da periferia”, mas o negro da periferia não se preocupa com o índio e depois cada um volta para sua onda. Nessa hipocrisia, a arte fica em 10º plano e o ser humano fica em 12º.

CONTINENTE Você acha que falta reconhecer a potência comunicadora e política da própria arte, do som em si?
AMARO FREITAS Isso. Eu estou toda hora me manifestando. A minha música é minha arma e ela é muito poderosa. A partir do momento em que eu faço um show, que o contratante viu e que o público sai estarrecido dizendo: “Meu Deus, que show foi esse?!”, gritando, pedindo bis… Cara, teve lugar que a gente tocou três bis! Na Argentina e na França, voltamos ao palco três vezes porque a galera pedia mais. E depois que a gente toca, todo mundo que vem conversar querendo entender intenções, as músicas, a nossa postura. Então, nem preciso bajular ninguém e nem falar tão diretamente toda hora. Às vezes, é necessário falar direto. Mas é bom fazer o sujeito pensar. Porque eu sou inteligente, sei fazer uma obra que não está totalmente na sua cara. Sei fazer um negócio que fica subentendido e que cada um vai ter sua reflexão sobre aquilo. Porque a arte leva para tantos caminhos que o seu lado pessoal é que vai decidir o que é. Então, o que vejo que falta, às vezes, é: primeiro, a preocupação com a arte e, segundo, a preocupação com o ser humano. Porque eu tô aqui num movimento negro, mas não tô nem aí se os músicos estão recebendo, não penso no filho do cara, na condição dele… Então, velho, o que é que você tá fazendo? Você quer o glamour da arte, quer ser uma celebridade. E ser uma celebridade se apoiando num movimento. Por isso sempre digo: antes de conversar qualquer coisa comigo, escuta a minha música. Às vezes, parece que somos guerreiros vivendo guerra, às vezes parece que estamos querendo gritar, às vezes parece que a gente tá querendo desabafar e acho que o nosso som não teria – e graças a Deus por isso – palavras tão definidas para representá-lo. É o tipo de sentimento que é justamente a música, está para além das palavras. Está para representar uma agonia, um sentimento que pode ser múltiplo.



CONTINENTE Talvez não seja nem representar, só apresentar.
AMARO FREITAS Exatamente! A gente se entrega muito pra tocar tudo isso. A partir do momento em que a gente começa a ter os mesmos links, a gente se incomoda e tenta buscar outros porque acabamos ficando aprisionados naquilo que a gente cria. Então, esse jazz de se entregar na hora e de apresentar, como você falou, que é uma coisa que talvez não fique tão clara, essa é a minha onda e é o que me emociona.

GG ALBUQUERQUE é jornalista e mestrando em Estéticas da Imagem e do Som pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Foi repórter da Folha de Pernambuco e Jornal do Commercio e colabora com o Portal Kondzilla, Vice/Noisey e Outros Críticos. Mantém o site Volume Morto.

ERIC GOMES é fotógrafo e videasta de cultura, com trabalhos autorais em movimentos sociais, manifestações e povos indígenas.

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