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Entrevista

“O teatro é uma espécie de aquilombamento”

A atriz, diretora e dramaturga Grace Passô – que estreia no cinema esta semana – recebeu a Continente no camarim da peça 'Preto' para falar sobre a profundidade do seu fazer artístico

TEXTO Mariana Filgueiras

24 de Abril de 2018

Grace Passô em 'Preto'

Grace Passô em 'Preto'

Foto Nana Moraes/Divulgação

Em pouco menos de duas horas, a personagem interpretada pela atriz Grace Passô vai entrar em cena e convocar a plateia: “Quem aí pode me ajudar a tirar essa mesa do palco?”

O público vai experimentar um certo desconforto, cruzar olhares, titubear. A mulher será incisiva: “Eu estou falando com vocês, quem pode por favor me ajudar a tirá-la daqui?”

Até que alguém se levantará para atender ao pedido, rompendo a quarta parede do teatro. Agora sim, quebrado o código elementar do espetáculo – o espaço convencionado entre o público e a cena – a peça Preto começa.


Foto: Nana Moraes/Divulgação

Mas antes disso, a atriz e uma das autoras do texto – que fala sobre as diferentes formas com que as pessoas encaram o preconceito racial – recebe a revista Continente no camarim para uma conversa sobre o teatro hoje no Brasil.

É impossível falar de teatro hoje no Brasil sem sibilar o nome sonoro da mineira Grace Passô.

Como atriz, diretora e dramaturga, Grace vem arrebatando público e crítica com seus espetáculos. Nos últimos dois anos, foi indicada 11 vezes nas mais concorridas láureas da categoria no país – levando sete delas, incluindo um Prêmio Shell de Melhor Dramaturga (ela tem dois no total); e o prêmio de Melhor Atriz do Festival do Rio pelo filme Praça Paris, de Lúcia Murat, em sua primeira protagonista no cinema. Só de 2005 a 2018, quando completa 38 anos, ela conquistou 15 prêmios.


A atriz no filme 'Praça Paris'. Foto: Divulgação

Nesta conversa, travada no camarim, pouco antes de entrar em cena, Grace falou sobre seus prêmios, seus espetáculos – recém-lançados em livros pela editora Cobogó – e sobre seu interesse pela implosão dos códigos teatrais clássicos; sobre como o teatro que pratica é também um quilombo, um espaço de fortalecimento em grupo. E ainda sobre a obsessão com aquele que é seu grande tema: as contradições de todo ser humano.

Elas estão também no texto de Preto, que daqui a pouco ela vai evocar:

E aí você vai buscar o fogo, obstinadamente, e essa obstinação que surge, de repente, é também uma espécie de fogo, interno, que arde, aqui dentro e te faz agir, saber, correr, erguer, sustentar, lutar, suar, lamber, mover, esfregar, ofegar, envolver, dançar, dançar, dançar, dançar, gozar, sussurrar no ouvido palavras de amor, gritar, e alguém ouvir, de longe, esse grito e saber que existe alguém ali, que grita em busca do fogo, e só pode gritar porque existe também essa espécie de fogo…

Antes de terminar a entrevista, há um círculo de fogo sendo montado do lado de fora do teatro, a última cena da peça, mas os espectadores que começam a chegar ainda não sabem. Sobe o pano.

CONTINENTE Qual é o espaço do teatro no contexto atual, em que as artes são rondadas pela sombra da censura e do conservadorismo?
GRACE PASSÔ As coisas são muitas coisas. Dizer sobre as coisas é tender a generalizar sobre elas. Quem sou eu para falar pelo teatro… O teatro é tão diverso, a noção de teatro, os tipos de teatro que se faz no Brasil. Mas para mim, da forma como eu entendo, o teatro é um lugar de resistência. O teatro é uma zona periférica da linguagem. Do que ele pode representar nas sociedades.

CONTINENTE Periférico como marginal?
GRACE PASSÔ Periférico não como marginal, o sentido pejorativo do marginal, mas é algo que está pelas bordas, é a periferia no sentido de resistência ao que a sociedade muitas vezes elege como tema principal, ou o que a mídia elege para estar em voga. Eu sempre tive essa relação com as artes: o teatro é uma outra língua. Não sei se uma língua mais especial, mas uma língua mais estranha a certas normatividades, certas oficialidades, ao que já está eleito, fundamentado. Para mim, o teatro é uma forma de resistência porque é uma forma de viver. Nessa sociedade tão opressora, é uma língua que pode ver pelas bordas. É um lugar que sempre, para mim, vai fabricar respostas. Respostas às questões urgentes da nossa sociedade, justamente por ele estar, enquanto arte, num lugar outro, oposto. Se o capitalismo cria um certo tipo de desejo, de facilidades, o teatro entrega outro.

CONTINENTE Como assim?
GRACE PASSÔ Se a gente pensar bem, o que é que a gente faz com o teatro? O teatro é uma experiência coletiva. Uma peça de teatro é uma experiência coletiva e singular. A gente reúne corpos vivos que criam várias coisas juntos. Textos, aparatos, públicos. Isso é real. Pode parecer um chavão, mas é real. É um modo de viver. A gente combina de se encontrar, geralmente à noite, e através de uma convivência, a gente foge, a partir de planos concebidos anteriormente. Então teatro é o lugar do risco, no sentido em que os corpos vivos são perigosos, são imprevisíveis. Nesse sentido é que o teatro vem na contramão da noção daquilo que próprio capitalismo elege como algo que venceu. O teatro que eu faço é para poucas pessoas, é uma coisa que tem o afã de curar dramaturgias atuais, que se joga num lugar de experimentação radical.

CONTINENTE O seu teatro está sempre buscando esse risco?
GRACE PASSÔ Sempre estive ligada às experiências que entendem o teatro menos como o lugar das previsibilidades dos seus códigos – olha o hora, três sinais, cada um no seu lugar, silêncio, aqui é a plateia, ali é o cenário, aplausos. Eu estou sempre ligada a experiências que questionem esses códigos, que implodam esses códigos, mesmo que seja usando esses códigos. Me interessa sempre estar numa zona de risco para que a gente nunca se esqueça de que o teatro é, sobretudo, uma questão de convivência e coletividade. Toda peça que eu faço vem de um desejo de lembrar às pessoas, seja através de estratégias dramatúrgicas, ou através de atuação, o que é o ato teatral. O fato de estarmos vivos aqui, num lugar de risco, e viver uma experiência junto. Pra mim, as pessoas, os corpos, eles vêm lotados das questões diretas, certas urgências, eles vivem na sociedade. Por isso que o resultado nunca é previsível.


Foto: Nana Moraes/Divulgação

CONTINENTE E você sente isso na resposta do público que frequenta seus espetáculos?
GRACE PASSÔ Sinto. De formas diferentes. Tem momentos de horror, mas tem momentos de uma certa naturalização de tipos de violência, uma nova linguagem de naturalização, como os novos aplicativos, sabe? É como se todos estivéssemos reconfigurados nas novas linguagens da violência. Por isso não existe outra possibilidade se não a arte de virar, de uma forma mais explícita ainda, uma zona de resistência, ou pelo menos de resposta.

CONTINENTE E uma zona de refúgio também? É melhor estar no teatro do que lá fora?
GRACE PASSÔ De refúgio também, porque, pra mim, o teatro é uma espécie de “aquilombamento”. Um quilombo é um lugar de resistência, mas é um lugar de se fortalecer com outras pessoas. Isso tudo para dizer que o teatro que eu entendo, o que eu faço, está mais ligado a uma certa artesania social, está mais ligado à feira do que ao shopping. O que eu faço está mais ligado ao corpo, à ideia de uma reunião para poucas pessoas, cheia de riscos.

CONTINENTE É essa energia toda que torna seu texto mais visceral? Em tempos de crise, dá mais vontade de escrever, você se sente mais potente?
GRACE PASSÔ Sim, acho que dá vontade de escrever mais, sim, cada vez mais, quanto mais as injustiças ficam explícitas, mais naturalizadas, a violência mais naturalizada, quanto mais isso vai se transformando em algo normal, mais dá vontade de falar diretamente sobre essas coisas, ou pelo menos estar diante dessas coisas. Diante dessas questões que a sociedade escancara. Os tabus, as injustiças, as questões existenciais, atemporais, o corpo vai abrigando essas coisas.

CONTINENTE Como surgiu o texto de Preto, espetáculo em que você está em cena atualmente no Rio de Janeiro, e que deve viajar pelo Brasil ao longo de 2018?
GRACE PASSÔ O texto de Preto foi feito por mim, pela Nadja Naira e pelo Marcio Abreu (Companhia Brasileira de Teatro), que dirige, e também a partir da proposta dos atores na sala de ensaio. Ele nasce de uma relação direta com a sala de ensaio. É um texto que é um mapeamento. O que a gente fez foi acampar em volta das temáticas relacionadas ao teor da peça, que é esse incômodo e essa naturalização da discriminação. A gente, desde o início, identificava a diferença explícita entre os elementos trazidos por nós, em relação a essas questões, brancos e negros. A gente buscou, a partir dos ensaios, a partir da perspectiva das pessoas que fazem essa peça, como se fosse uma terapia entre quatro paredes.

CONTINENTE Esse processo coletivo te interessa mais?
GRACE PASSÔ Não é que me interesse mais do que os outros tipos de processo de criação. Mas uma coisa me interessa: que a relação entre os atores no palco e na cena seja de aproximá-los da concepção do espetáculo. Existem várias formas de se fazer isso. Às vezes, criando um texto com eles; às vezes, pela atuação. Me interessa muito o lugar da atuação como concepção do espetáculo. Pra mim, atuação é autoria. Em qualquer texto. Me interessa muito que a atuação seja uma forma deliberada de apropriação de um texto.

CONTINENTE E como é fazer isso acontecer na prática?
GRACE PASSÔ Pra mim, é a única forma de viver. Me interessa muito a concepção. Talvez por questões egoicas, de criar, de poder imaginar outra coisa.

CONTINENTE O seu projeto artístico experimental tem dado certo. Desde 2005, já são 15 prêmios. É curioso que um projeto não convencional tenha esse retorno imediato?
GRACE PASSÔ Eu me pergunto: como sobreviver a tantas coisas? Eu acho que talvez esteja visível, nos projetos que faço, uma busca obstinada pelas coisas. Por exemplo, quando vejo a relação desses textos ao longo do tempo, eles têm continuação de um para o outro. Em termos de linguagem, descobertas, é a sensação que, de alguma forma, o artista vai formando uma comunidade. Mesmo silenciosa. Acho que a linguagem tem esse poder também, o de formar uma comunidade. As pessoas que foram ver Por Elise, depois foram ver Amores surdos, depois o Congresso Internacional do Medo… As pessoas vão agregando. Acho que se existe uma força em apoiar trabalhos como os que faço porque, de alguma forma, vou arrastando gente. E lógico que eu não faço nada sozinha. Existe alguma lógica no trabalho que vai agregando umas pessoas e não outras, e são as que vão se interessando.


CONTINENTE Alguns temas são recorrentes na sua obra: machismo, racismo. Você já disse em entrevistas e oficinas que é obsessiva com as questões do nosso tempo.
GRACE PASSÔ Eu tenho uma obsessão sim. A de buscar, de falar sobre, de formas diferentes, o quão contraditórios nós somos. A diferença enorme que existe entre o que a gente pensa e o que a gente faz, o que a gente fala ou gostaria de fazer. Isso é uma obsessão grande. Sensações, estados que são contraditórios, que derrubam certezas. A diferença entre o que uma pessoa parece ser e o que ela é, de fato. E aí entra numa questão ampla: desde questões mais simples, como olhar alguém e ver alguém que parece chorar e a pessoa está rindo, até a diferença entre a imagem social de alguém e o seu caráter.

CONTINENTE O seu interesse é flagrar isso no cotidiano?
GRACE PASSÔ Sim, esse exercício.

CONTINENTE Você fica anotando cenas do cotidiano?
GRACE PASSÔ Eu não, sabia? Sou boa de ouvido, mas acontece mais de eu sentar e escrever num jorro.


CONTINENTE Muito se repete sobre a sua polivalência. Está tudo conectado? A Grace atriz, diretora, dramaturga?
GRACE PASSÔ Pra mim, é tudo junto mesmo. Eu tenho pensado muito no valor disso, por exemplo, que é dirigir atuando, o que aconteceu naturalmente pra mim. As dificuldades e as vantagens. Traz uma relação mais interessada na cena. Trabalhando como atriz, eu entendi que, para ter um espaço real de trabalho, eu precisaria criar esse espaço, não um espaço físico, mas o ficcional mesmo. Fui atrás de ampliar mesmo o espaço de atuação do intérprete. Fui produzir, fui criar, fui dirigir as peças, para que eu não precisasse depender do que o outro quisesse de mim, mas criar meu próprio espaço. Era uma demanda particular objetiva: nós, mulheres, historicamente investimos em diversas frentes, a mãe, a profissional, eu não ia ficar esperando acontecer. Eu fui atrás. A ideia de passar por muitas funções nasce de uma demanda muito objetiva. Claro que tive algumas sortes, na minha casa havia muitos livros, meus pais tinham uma relação forte com a literatura. A minha família era a típica família que sai em busca de estudo. Meu pai abandonou o trabalho, e ele era funcionário público, para fazer uma faculdade. Foi um investimento grande da minha família e isso me possibilitou experimentar hoje.


CONTINENTE E aqui na lida do teatro – a operária Grace, o chão de fábrica –, o que o dia a dia no palco mais te ensina?
GRACE PASSÔ Acho que me ensina a coisa mais difícil que tem na vida: não desistir de se relacionar. Cansa às vezes. A própria ideia de falar com pessoas que você não conhece, todos os dias, que você não faz ideia do porquê elas estão ali, é uma ideia radical. Então cansa. O teatro me ensina a não resistir ao fato de que é necessário se relacionar. Afetar o outro e se deixar afetar.

CONTINENTE O que você tem visto no Brasil que te interessa?
GRACE PASSÔ De um modo geral, os espaços de teatro mais potentes que existem no Brasil hoje são iniciativas de artistas, não de empresas. Normalmente, são lugares mais ligados a um projeto de vida, a um projeto de conexão com a cidade. Uma curadoria que vem junto com o grupo. Vários grupos de teatro têm aberto sedes em zonas marginalizadas na cidade, valorizando e jogando luzes nessas zonas. Esses lugares pensados para disputar as pessoas existem para que as pessoas possam se encontrar, estar juntas. Os projetos mais potentes não seguem pautas de grandes instituições. Em Belo Horizonte, posso citar o grupo Espanca!, de onde eu vim; o grupo Zap Dezoito; o Teatro 171. Eles formam um público que se identifica com eles, que se fortalecem com os seus. E isso é o mais potente.

MARIANA FILGUEIRAS, jornalista, mestranda em Literatura pela UFF.

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