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Delivery de naja

TEXTO Karina Buhr

13 de Julho de 2020

Ilustração Karina Buhr

Oi gente, voltei. A mesma animação do mês passado, só que pior. Segunda-feira abre academia em São Paulo, que beleza!

Trezentos mortos por dia há um monte de dias (não esqueça a subnotificação, colega), mas não aumentou, ó que massa, pense num platô! O governador disse que está tudo dentro do esperado, que é pra todo mundo ficar tranquilo, mas nem tanto.

Abriu restaurante e bar e o professor na televisão estava indignado, “está reabrindo, mas não é pra todo mundo sair de casa!”. Anda meio confuso saber quando você está fazendo parte do todo mundo ou quando é apenas você, cidadã ou cidadão, querendo ir num shopping porque ele abriu. Ele está lá aberto, deve ser pra ir. Mas nem tanto.

Podia organizar por signos. Segunda sai touro e áries, terça aquário e sagitário, quarta câncer e gêmeos, quinta virgem...quem chegar depois de virgem vai ter a vantagem de encontrar uma cidade toda montada nas categorias. Podemos abrir enquetes, fazer um plebiscito, daqui pro fim da pandemia, se sobrar brasileiro, a gente decide as combinações dos signos. Meu voto é que leão podia ter um dia só pra ele. E gostaria de touro e áries no mesmo dia por motivo de força maior.

Esses dias em Brasília, um cidadão – cidadão não, estudante de veterinária, enteado do tenente-coronel, melhor que você – foi picado por uma cobra. Uma Naja, assim, maiúscula, venenosa e internacional.

Ele era estudante de veterinária, mas agora descobriram que é um traficante. Se chama tráfico internacional de animais silvestres.
Nos jornais, ele é o “estudante de veterinária”, ou é o “jovem” e pode ser também o “criador de cobras” e até o “admirador de serpentes” e o comparsa, que deu fim na naja, digo, soltou perto de um shopping, no jornal tem a alcunha de “amigo”.
Sim, lá também estão abertos os shoppings.

A polícia, no meio dessa charlação encontrou mais 16 serpentes e até tubarão.
Tem mais amigos envolvidos. Tubarão-lixa e mais outro lá. Qual é o coletivo de amigos? Bando?

No Rio de Janeiro, mais dois jovens foram presos no Leblon, acusados de fazer delivery de drogas para jovens e velhos da Zona Sul. Delivery. Leblon. O Leblon está tendo uma grande saída.

Esses dias um cidadão que roubou dois xampus não teve habeas corpus nem com pandemia. STJ. A decisão que Rosa acatou partiu de Felix. Ele disse, e Rosa concordou, que o camarada nas ruas poderia trazer “grande risco para a ordem pública”. Ordem pública.
Na sentença, tem escrito que ele é “incapaz de viver em sociedade”. Os xampus custam 10 reais, não entendi se cada um cinco ou cada um 10, mas eles ficaram muito preocupados, disseram que ele é até reincidente, que é realmente um grande risco. Dois xampus.
Ordem pública. Juízes supremos. Dez reais.

Esses dias morreu de Covid-19 um brasileiro preso em Minas Gerais. 
Ele tinha 28 anos e fazia parte dos 80% de infectados no presídio de Manhumirim. O crime que cometeu foi que a polícia invadiu a casa dele e achou 10 gramas de maconha. Passou dois anos preso, por tráfico.

Dez gramas de maconha. Dez “cigarros de maconha”, diria o repórter da televisão.
Morreu de Covid-19. Na prisão. Dez gramas de maconha.
Ordem pública.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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