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Um ano

TEXTO Karina Buhr

15 de Março de 2021

Ilustração Karina Buhr

Um ano com nome abandono, sem mirada de alegria possível. Tempo de tudo de ruim ficar pior, como se pudesse, e pode. Os corpos que não estão doentes ou mortos também estão sim, de algum jeito. Ligados pelas ausências, sem entendimento da palavra futuro, uns bem mais que outros. Fome. Um barco doente se desintegra, rumo torto, leme solto, tempestade sem guiada, comandante já nos matava de vergonha bem antes de matar de fato, patente bordada porcamente na farda borrada. Ele não é coveiro, coveiro é o que trabalha muito, ele é bem ao contrário, o que impede as passagens, o que não flui, é bem diferente.

O coveiro de verdade trabalha na dignidade que não passa ali por perto, cava muito, mais que qualquer tempo, pausa nenhuma. Buracos extraordinários, para além do fundo da bola da Terra, arreganha as entranhas no chão, mais de duas mil fendas, ele sozinho, isso diário, crateras cósmicas que abrem tudo até o outro lado do mundo, furo ferido, um saca rolha de astros, e caímos todos no etéreo, desse lugar para realidade outra, que qualquer que seja, há de suplantar. “Desta para melhor”, nunca um senso tão perfeito. Faz mais de ano.

O sepultador por profissão foi contratado há duas décadas e lembra do dia em que deu o comunicado de um emprego comum que arrematou. Contou pra família no almoço, de infame que pensou que poderia ser a notícia pro filho do meio, piadista de tudo, errou feio, que sorte, comemorou-se, pudim de sobremesa. Lembrança boa de um tempo em que se morria normal, mesmo já não sendo normais grande cota desses finais, com a obrigação do não esquecimento, que onde mais se morre hoje, antes também. O alvo é o mesmo, não negligência, escolha.

No meio dos ossos literais do ofício, o bom coveiro aperfeiçoou cada gesto ao longo dos anos e isso agora conta muito, os braços compridos fazem percursos mais rápidos e sustentos, fama de veloz entre os comparsas dessa e da equipe vizinha, exemplo a se seguir, arteiro, intui o próximo dia sem acompanhar noticiário, pelo ar do terreno em que se enterra os quase vivos, muito rápido. Levita invisível entre soluços familiares, cobertos de longe pela névoa das lágrimas pesadas evaporando, desde o tempo que existia felicidade tipo comum, tudo transpassa o pranteado das caras dos parentes vivos, quase mortos. No redemoinho da profissão que nunca que achava que seria tanto, tornou um obstinado prestigiador da perfeição da cova, torrão marrom, esmero desconhecido, mesmo dele, até dia desses, nova forma de atuação no de sempre, ofício dos mais antigos, morre-se desde que o mundo começou, de peste desde o primeiro atracar de navios.

O professor disse que o colapso hospitalar gera colapso dos lençóis freáticos, tudo o que ainda tem saúde se estraga, os rios ficam podres, os peixes e tudo que neles se banha e deles bebe. Pode ser que falte caixão, vai faltar, também as fábricas estão exaustas, nem todas as árvores retalhadas estão a dar conta de se fazerem nossos paletós. Caímos nus na via láctea, pelos buracos cavados até o fim, cadáveres lotando o espaço inteiro, entupindo o ar de infecção, endurecidos, macios quase agorinha, é muito rápido que se morre, nos despejamos daqui, aguardando pelo bom olhar que não chega, pelo cuidado negado pelos capitães, pelos generais. Vagaremos, blocos de um carnaval zumbi, nos faltando somente as benditas caixas de madeira, que também se chamam urnas, vejam só, para que outras formas de vida não precisem procurar chaves ou pés de cabra pra cerrar invólucros e se alimentarem. Resignados, mudos e mocos, seguiremos à disposição de muitas formas de vida, menos da nossa.

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