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Lançamento

Alquimia e contrabando de minério num enredo misterioso

Cepe Editora publica 'Jogo de cena', terceiro romance policial da escritora pernambucana Andrea Nunes. Leia trecho

TEXTO Andrea Nunes

07 de Março de 2019

Ilustração Karina Freitas

[conteúdo na íntegra | ed. 219 | março de 2019]

contribua com o jornalismo de qualidade

PRÓLOGO
O perfume da morte estava ali.

Michel aguçou os sentidos como uma presa farejando o perigo. Tinha se embrenhado na mata escura, guiado apenas por seus instintos, tentando não ser apanhado pelos inimigos. Eles estavam muito perto, podia sentir isso agora.

Quando imaginara esse inevitável confronto, há algumas semanas, havia considerado várias possibilidades de despistá-los ali, mas fugir não era a solução. Eles o perseguiriam até no inferno, se fosse preciso. Enfrentá-los também seria uma insanidade, com certeza estavam muito bem armados, eram treinados e letalmente perigosos.

Pensou no segredo, e no quanto lutara para descobrir aquilo: a pesquisa de toda uma vida, a descoberta que atraíra seus assassinos para aquele local, a fim de roubar-lhe tudo, impedir que seu conhecimento prevalecesse.

Abraçou o próprio corpo, tremendo. Teria de pagar um preço tão caro por seu achado?

Ouviu passos se aproximarem, e seu olfato sofisticado sentiu mais uma vez o suor dos predadores. Tentou ignorar a dor latejante por conta das mãos e dos joelhos esfolados, e então se encolheu sob um arbusto no canto mais escuro que encontrou, obrigando-se a afastar o medo.

Não havia motivo para ficar angustiado. O segredo agora estava guardado em um lugar muito seguro. Quando suspeitara da visita dos algozes, soube que não poderia se proteger daquela busca, mas felizmente teve tempo de esconder as informações de modo que aqueles brutamontes jamais suspeitassem onde encontrá-la.

Eles não iriam conseguir. Ninguém o faria falar.

As botas surgiram no seu campo de visão. Michel levantou-se, encarando com determinação surpreendente os três homens que marchavam em sua direção. Reconheceu imediatamente as boinas e o estilo das roupas.

Eram da tropa assassina dos homens-caveira. Preparados para matar. O braço armado da Skull and Bones, organização secreta mais poderosa do mundo.

Faria, afinal, o que tinha de ser feito. Tinha disciplina.

Quando, há muitos anos, percebeu que era predestinado a mudar a História, soube também, instintivamente, que despertaria ódio, cobiça e inveja. E que teria de fazer grandes sacrifícios.

Respirou fundo e levantou os braços cobertos pela túnica branca que estava usando, agora suja e rasgada por conta da trilha rastejante que fizera até ali pela mata.

Mas aquele gesto estava longe de ser uma rendição.

Atrás dele, somente uma lua crescente destacava os contornos de sua silhueta fantasmagórica. O piado de uma coruja no alto de um visgueiro quebrou o silêncio.

Michel sorriu, enquanto observava a expressão intrigada dos seus perseguidores, que procuravam cercá-lo com cautela redobrada.

— Sim, nesse momento já sou um fantasma — disse ele. — Mas quem assombrará vocês pelo resto da vida será minha descoberta, que não morre comigo, e se perpetuará para dar ao mundo a luz que vocês tanto odeiam! Adieu! 

Saltou do morro de braços bem abertos, as mangas da túnica frouxa se agitando ao vento, como uma ave migratória que inicia um voo para terras longínquas. Atirou-se rumo às águas escuras do rio que corria dezenas de metros abaixo dali.

Os três soldados ficaram estupefatos, postados à beira do abismo, acompanhando a trajetória do corpo, até que ele afundasse tragado pela água.

CAPÍTULO 1
Pinhões… Papagaios… Carreiras ao sol…
Voos de trapézio à sombra da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio…
Jogos de castanhas…
O meu engenho de barro de fazer mel!

Minha escola, Ascenso Ferreira

Alexandra recolhia os pertences pessoais que seu predecessor deixara naquela repartição após uma precoce aposentadoria da carreira policial. A verdade é que, desde que ela assumira a titularidade daquela delegacia, há exatos seis meses, não tivera coragem de mexer em nada ali, por reverência ao homem que tinha sido o seu modelo de profissional e de ser humano. O doutor Siqueira podia estar numa cadeira de rodas agora, mas sempre seria um super-herói para a garota estouvada e adolescente indomável que ela fora. Era engraçado que não fossem unidos por verdadeiros laços de sangue, mas ela sentia que havia herdado muita coisa da personalidade daquele homem que a havia criado. Agora que ele se aposentara por conta de problemas de saúde, ela, delegada recém-concursada, viria a assumir justamente as funções do pai de criação, na cidade onde nascera e crescera.

Naquele dia, estava decidida a finalmente imprimir seu estilo ao lugar: começara mandando lavar as cortinas, dar uma mão de tinta nas paredes e colocar alguns jarros de planta no saguão de entrada. Os porta-retratos, decidiu, reprimindo um sorriso, também precisavam ser trocados. Tinha profundo respeito pelas recordações da época em que o pai ocupara aquele posto, mas chegara à conclusão de que não seria de bom-tom que as pessoas da cidade chegassem à delegacia e se deparassem com uma foto da sua respeitada delegada apenas de calcinha, banguela, brincando com baldes e pás no quintal de casa.

A mente de Alexandra viajou no tempo até aquela época longínqua capturada na película: ela era ali uma menina de sete anos; tinha saído recentemente de uma vida de muitas privações, quando de repente ela e a mãe foram chamadas a morar numa das melhores casas da cidade, que era a do delegado Siqueira. A esposa do delegado morrera, e sua mãe, não cabia em si de felicidade, explicando à pequena Alexandra que dali em diante teriam uma vida melhor.

E tiveram mesmo. O viúvo era um homem bom e generoso. Alexandra, apesar de não ser sua filha de sangue, se sentira genuinamente acolhida por ele.

O delegado, pai apenas de um único filho homem, parecia ansioso para dedicar afeto e proteção à nova família. Rosa, a mãe de Alexandra, era amante de Siqueira já havia alguns anos e, com o falecimento da esposa dele em decorrência de um câncer, fora alçada à categoria de matriarca daquele lar, assumindo todas as responsabilidades na gestão da casa e educação das crianças. Era bem verdade que não tivera muita oportunidade de educar o filho do novo marido, que tinha treze anos à época do falecimento da mãe e fora estudar num colégio interno no Rio de Janeiro, só aparecendo na cidade nas férias escolares.

Alexandra lembrava com nitidez da criança que Pedro fora. Um garoto magricela de olhos inteligentes e sorriso arrogante. Os primeiros anos de convivência com ele foram os mais difíceis, pois o órfão não aceitara muito bem a “família substituta” que ocupara o lugar da sua. Ela suspeitava que o comportamento agressivo e o isolamento voluntário do rapazinho no internato carioca eram suas defesas contra a tristeza que sentia pela perda da mãe. E assim tinham vivido até ali: como irmãos distantes, que nunca quebraram o abismo de dor e silêncio para nutrir a verdadeira convivência familiar que poderiam ter tido.

Mas ela não poderia de maneira alguma se queixar da vida. Havia sido criada com todo o cuidado pela mãe e por Siqueira, que a enchera de mimos, e investira nela como se fosse sua filha legítima. Tivera uma infância feliz e livre de menina de interior, brincando à sombra das imensas mangueiras da praça da cidade, fugindo para deliciosos banhos de rio, mas estudando sempre nas melhores escolas da região.

Finalmente, já crescida, se viu seguindo a carreira do pai postiço, ao ingressar na Faculdade de Direito e, depois da formatura, passar no concurso público para delegada.

“Ah, o baile de formatura”, lembrou, pendurando o próprio diploma universitário na parede, junto à réplica de um Matisse.

Ela se recordava que, no dia do baile, estava numa situação muito embaraçosa. Isso porque, durante o período de faculdade, Siqueira mencionara em várias ocasiões que era um ótimo dançarino, e os dois fariam uma bela dupla no baile de formatura. Bem, ele não contava com o agravamento da neuropatia causada pela diabetes, que de início o deixara apenas com leves dormências, até de repente começar a causar perda parcial da sensibilidade dos pés e das pernas, comprometendo sua mobilidade a tal ponto que ele teve de ir ao baile com uma bengala.

Estava instalado o problema: ele era orgulhoso demais para admitir que não poderia dançar com a filha. Ela, por sua vez, jamais teria coragem de pedir-lhe que declinasse daquela honra.

Alexandra ajeitou com o maior cuidado a moldura do diploma na parede da delegacia, encarando seu reflexo no vidro que protegia o documento. O que ela viu ali, entretanto, foi uma moça de vinte e dois anos olhando a si mesma no espelho do salão de baile, enfiada num glamoroso vestido vermelho confeccionado especialmente para aquela ocasião, e se achando a mais inadequada das mulheres. Rezava para retardar o momento em que o chefe de cerimônias chamaria o seu nome.

Uma formanda sem par para a dança de formatura!

A moça refletida no espelho naquele dia lhe devolvia um olhar apavorado. Por que diabos deixara as coisas chegarem até aquele ponto? Poderia ter tido uma conversa franca com o pai, ou, se faltasse coragem, poderia simplesmente nem ter ido àquele baile! Será que ririam dela? Ou pior, sentiriam pena?

Mas, poucos momentos antes de chegar sua vez de ser chamada, sentiu seu braço ser enlaçado pelo braço de um rapaz alvo, de cabelos pretos, que a encarou com um semblante soturno:

— Boa noite, Alexandra. Papai não vai poder dançar. Ele mal consegue se levantar da mesa, mas não diga a ele que eu lhe disse isso. Serei seu par nessa valsa.

Alexandra olhou com assombro para o rapaz. Se Pedro não tivesse mencionado “papai”, ela não o teria reconhecido. É verdade que ele passara uns três anos sem aparecer no Brasil, mas seu corpo não guardava nenhum vestígio do menino magricela que ela vira pela primeira vez quando chegara à casa de Siqueira. Ela reparou ainda que, se o smoking não tivesse enchimento nos ombros, ele estava bem mais forte. E também mais alto. Os olhos, sim, continuavam inteligentes, e a antiga arrogância ainda era nítida ali.

“Sempre se achando superior”, observou, com uma pontada de irritação.

O chefe de cerimônias anunciou seu nome, e ela deu um passo vacilante em direção à pista. Uma mão quente amparou suas costas, bem na altura da fenda do decote traseiro do vestido, impedindo que seu corpo desequilibrasse com o passo em falso.

— Nervosa, meu bem?

O sangue subiu à cabeça de Alexandra quando Pedro pronunciou aquelas palavras em tom de provocação. O sotaque nordestino dele tinha praticamente ido embora, mas isso fora desaparecendo aos pouquinhos, a cada ano, desde a ida para o Rio, ainda meninote. Em lugar de entoar a musicalidade pernambucana, a boca de Pedro agora arreganhava as palavras metendo uma overdose de “as” no fim dos fonemas, os lábios envergando em movimentos sinuosos sobre a arcada dentária, com o maxilar se projetando pra frente para acomodar aquele sotaque meio jocoso, quase carioca, e afrontosamente indecente.

Disparou o olhar mais frio que conseguiu para ele:

— De jeito nenhum, querido. É que não sou acostumada com sapatos de salto alto. Você por acaso sabe dançar?

O sorriso arrogante se espalhou ainda mais no rosto dele.

— Consigo arriscar uns passinhos. Por que não constata por si mesma?

Ela respirou fundo e entrou na pista de dança com o rapaz. Logo reparou que aquela arrogância insuportável era alimentada por muitos olhares de admiração feminina. Tentou se concentrar na dança. Pedro cheirava a perfume caro e uísque. Dançava muito bem, e aquela mão plantada nas suas costas parecia guiá-la com tanta naturalidade nos passos que davam pelo salão que era como se tivessem dançado valsa a vida inteira. Ele estaria tentando mostrar sua superioridade de “filho legítimo” com relação a ela, a filha da amante de seu pai? Ou estava apenas se exibindo para as moças?

Não trocaram nem uma palavra durante a dança. Não que não houvesse assunto, mas eram tantos melindres e arestas que parecia que o silêncio era a coisa mais confortável para ambos. Ao fim da valsa, Pedro aplicou um beijo rápido na bochecha dela e murmurou ao pé do seu ouvido:

— Parabéns pela formatura. Espero que você mude o mundo… irmãzinha.

Ah, como detestara aquela pausa que ele fizera antes de se referir ao seu parentesco imaginário! O filho da mãe almofadinha estava querendo mesmo subjugá-la, destacar a diferença que havia entre eles. Mas não seriam aqueles anos enfurnado em universidades da Europa que dariam a ele a superioridade tão sonhada. Alexandra sabia se dar valor quando era provocada. Abriu seu melhor sorriso e respondeu:

— Não somos irmãos, Pedro. Nunca fomos, nem poderíamos ser. Somos criaturas muito, muito diferentes, não percebeu? Eu morreria de tédio antes de aprender todas essas coisas importantíssimas para a humanidade que você passou anos estudando em cinco línguas diferentes. Quanto a você… não sei se conseguiria entender algo sobre regras, disciplina, ordem, essas coisas chatas a que me dediquei na faculdade. O tempo presente, o da vida real, deve ser muito maçante pra você, não é?

Ele permaneceu alguns segundos em silêncio, observando-a no meio do salão de baile, quando novos pares de dança já desenvolviam suas coreografias. Por fim, deu um suspiro e assentiu:

— É, não somos irmãos. Não somos mesmo.

Depois daquela frase enigmática, desapareceu novamente do salão de bailes, da festa e da cidade. E a partir dali também não deu as caras por mais de dois anos.

Alexandra deu um risinho de pura perversidade tentando imaginar a fúria de Pedro quando voltasse e descobrisse que ela havia passado no concurso de delegada, dando continuidade à carreira do pai, e o melhor: agora era titular da mesma delegacia que ele ocupara por boa parte da vida.

Essa perspectiva animou-a a passar um pano úmido na estante de madeira e depositar ali seus livros de Processo e Direito Penal, até então guardados em caixas de papelão.

CAPÍTULO 2
Na boca da mata
há furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar: 

Ali dorme o Pai-da-Mata
Ali é a casa das caiporas

Trem de Alagoas, Ascenso Ferreira

O discípulo respirou pesadamente, sentindo a ansiedade tomar seu corpo antes do começo da grande cerimônia.

Depois daquele dia, nada seria igual a antes. Ali, no meio de uma pequena mata fechada no agreste pernambucano, de importância despercebida pelo mundo, repousava a grande oportunidade de sua vida. A chance de sair de uma existência medíocre e fazer parte de algo maior, de partilhar poderes e segredos que as pessoas comuns nem sonhavam em deter.

Olhou para as copas das árvores que se projetavam contra um céu cinzento e quase sem estrelas, deixando o caminho mais ensombreado do que previra. Seus passos o conduziam lentamente ao barracão onde os ritos estavam iniciando. Nada de pressa. Queria absorver a atmosfera que o envolvia em cada detalhe, queria degustar o momento, se embriagar nele. Junto com o caminho que deixava para trás, ia se despindo também da sua vida ordinária, que a partir dali ficaria na lembrança. Nunca mais a dor, nunca mais o escárnio dos outros. Nunca mais o fantasma da loucura a lhe espreitar, assombrando o pensamento.

Agora, havia tesouros milenares a defender junto com seus novos irmãos, e grandiosas missões o esperavam. Tudo o que precisava fazer agora era ser humilde, atento e servil. Estava sendo aceito.Desde que nascera, pressentia que o destino lhe reservara algo além da rotina tediosa das pessoas normais. Esperara por isso, e era digno desse reconhecimento. Provaria aos novos irmãos que era capaz de fazer parte de tudo aquilo.

Quando chegou, o barracão já estava escuro. Lá dentro, apenas as velas dispostas em castiçais grosseiros irradiavam a fraca luz no ambiente Outras pessoas conversavam em pequenos grupos, em tom baixo e respeitoso, e ninguém pareceu notar a sua entrada. Uma intensa fumaça contribuía para a pouca visibilidade do ambiente. Parecia uma sauna, observou divertido, mas não havia calor, só um cheiro forte de essências florais, que impregnavam seus sentidos.

Aos poucos, a quantidade de pessoas foi aumentando e os vultos começaram a formar uma grande roda, a que ele perceptivamente procurou se integrar, posicionando-se entre dois homens cujos capuzes, iguais ao seu, encobriam o rosto com um véu de sombras. Com os olhos fechados, sentiu mãos calosas envolverem as suas. Trabalhadores rurais e gente remediada se misturavam democraticamente, naquela reverência à antiga crença perpetuada por várias gerações de nordestinos através da cultura popular: o catimbó.

O som ritmado de maracás ecoou no recinto, a princípio como um leve farfalhar de contas, mas sua musicalidade crescente em poucos minutos preencheu o local numa cadência profunda, quase hipnótica.

No fundo do barracão havia uma toalha branca disposta sobre o chão de terra. Em cima dela, pratos fundos com fumo picado intercalavam velas, imagens de santos e garrafas de bebida. Uma mulher gorda com capuz encheu dois vasilhames em forma de cuia com uma bebida escura de cheiro forte, e distribuiu-a aos integrantes do círculo, que davam alguns goles no líquido oferecido e passavam o recipiente para os vizinhos, até que todos tivessem experimentado.

Quando chegou o momento, o discípulo segurou cuidadosamente a cuia e sorveu três goles da bebida, que desceu queimando por sua garganta. Primeiro, o calor se espalhou por todo o seu corpo. Os dedos das mãos e dos pés formigavam e, com a visão ligeiramente turva, ele observou a magia começar a acontecer. Estava mais consciente de cada célula do seu corpo. Mais forte, e curiosamente, mais leve. Os pés mal tocavam o chão, como se a própria alma puxasse seu corpo para cima, arrebatando-o para o encontro com uma dimensão puramente espiritual. Era a poção mágica feita das folhas da jurema, a árvore sagrada da floresta, reverenciada e protegida por todos os praticantes daquele culto.

A partir dali, o encantamento tomou conta do ambiente. Os maracás se uniram a chocalhos e murmúrios, e todos caíram de joelhos quando o mestre surgiu, envolto na penumbra, seu vulto postado majestosamente no fundo da sala. A mulher gorda agora segurava um grosso cachimbo, de forma invertida, e circulava ao redor das pessoas, movimentando as mãos em gestos bruscos, de modo que o cachimbo espalhasse sua fumaça de cima a baixo sobre cada um dos presentes. O discípulo entregou-se com fervor àquele já conhecido ritual da defumação.

— Purifica-nos, mestre!

Fixado naquela distância que assegurava sua condição de intangível e pouco visível, o mestre apanhara um crucifixo e o colocara na testa encapuzada. Quando finalmente falou, sua voz saiu distorcida pelo alto-falante embutido, etérea e ligeiramente metálica.

O mestre era uma criatura superior e iluminada, e sua identidade não poderia ser reconhecida na rua pelos seus discípulos quando estivesse à luz do dia, acessível e desprotegido. Aquele era um culto de natureza secreta e deveria permanecer assim. As próprias pessoas ali não desejavam ser identificadas, daí terem decidido pelo uso do capuz. O discípulo suspirou com tristeza ao lembrar o motivo disso: o culto do Catimbó fora desvirtuado ao longo do tempo por pessoas ignorantes, que o associaram à prática da magia negra, com indução de alucinações e atividades ilegais.

O discípulo emergiu de suas divagações para se concentrar nas palavras do mestre, que abria a Mesa com suas costumeiras invocações.

Naquela noite não havia muitos doentes a serem tratados. Quem entrou primeiro foi um mulatinho jogado sobre a mesa pela mulher gorda. O menino cuspia assustado o sarro de cachimbo que lhe fora ministrado sob a língua, enquanto o mestre segurava firmemente sua cabeça com as mãos em garra, entoando rezas musicais que eram acompanhadas pela cantadeira, no lado direito da sala.

Depois do garoto, a sessão de cura se encerrou com uma surra de pinhão roxo aplicada a um velho claudicante. O idoso encurvava o corpo todo enquanto o mestre lhe açoitava as costas com o arbusto, gritando algumas palavras de ordem numa língua ininteligível até o paciente revirar os olhos num espasmo e cair inerte no chão. Foi retirado dali sem qualquer esforço pela mulher gorda, arrastado pelos braços.

O mestre, a partir desse momento, reassumiu uma postura serena e se voltou para a plateia que acompanhara o espetáculo completamente muda, até então.

— Meus caros irmãos, gostaria de iniciar a noite agradecendo aos nossos mestres espirituais pela intercessão nas curas de hoje, salvando os pobres irmãos que acabaram de se livrar das forças malignas que os acometiam.

Murmúrios de aprovação vinham da plateia. O mestre ergueu os dois braços para chamar a máxima atenção dos ouvintes :

— Esta noite, porém, tenho uma mensagem especial para todos. Como vocês sabem, a jurema é a árvore sagrada que traz a seiva de onde extraímos nosso passaporte para o mundo da magia. É dessa árvore que confeccionamos o líquido sagrado aqui tomado por todos, que induz o estado espiritual abençoado em que nós nos encontramos agora! Entretanto, as terras desse engenho abandonado em que estamos estão ameaçadas de ser desapropriadas pelo Governo. A mata, segundo os planos das autoridades, será derrubada para dar lugar a construções populares, e nosso santuário, meus irmãos, será destruído!

Novos murmúrios se ouviram, dessa vez sob a forma de lamentos e expressões de indignação das pessoas presentes. O mestre prosseguiu, mais severo:

— Querem nos destruir, meus irmãos! Uma tradição secular como a nossa está em perigo por conta de conveniências políticas. É por isso que O Rei dos Mestres, em pessoa, esteve comigo nesse momento sagrado e vos confiou uma nobre missão. Ele me disse: “Avisa teu povo que isso é uma guerra. Não podemos deixar nada disso acontecer. Cada um deve lutar com as armas que tem para impedir essa desapropriação”.

A nova pausa retórica do mestre provocou alguns ruídos de admiração e excitação. Satisfeito em estar obtendo o efeito desejado, retomou o discurso:

— Meus irmãos, com a derrubada da mata, não teremos onde nos abrigar. Com a destruição das árvores da jurema, nosso culto morre. Sei que não podemos expressar nossos verdadeiros motivos em público, já que nosso culto é secreto em face da incompreensão das pessoas, mas cada um de vocês receberá uma centelha da iluminação divina para saber o que deve fazer para impedir esse crime. Sensibilizem suas famílias, falem com os políticos. Esse conjunto habitacional não pode ser construído aqui nessas terras. Deem as mãos, meus irmãos. Vamos cantar à glória do Rei dos Mestres e à glória da jurema.

O discípulo se uniu ao coro de pessoas emocionadas que davam as mãos e cantavam com fervor uma oração de encerramento da sessão. Mas, antes que finalizasse o ritual, sentiu a mão da mulher gorda puxando o seu ombro sem qualquer delicadeza.

— O mestre quer vê-lo — ela murmurou, com o hálito forte de fumo. — Lá atrás, na salinha.

Abandonando discretamente o recinto, ele a acompanhou até a parte externa do barracão, onde foi acomodado numa sala ainda mais escura do que o ambiente do culto. Estivera ali somente uma vez, há poucos dias, quando fora alçado ao honroso status de discípulo. Viu duas cadeiras velhas, mas sabia que não deveria sentar, e, sim, se ajoelhar no chão de terra.

Mal tinha envergado os joelhos quando a figura imponente do mestre apareceu no fundo da sala. Parecia um pouco mais baixo ali, mas igualmente misterioso, envolto em seu fascinante alumbramento, o rosto todo coberto pelo capuz e o corpo indefinido envolvido pela longa túnica escura, que estivera usando desde o início da cerimônia.

O discípulo prostrou-se numa profunda reverência, encostando a testa na terra fria, enquanto falava:

— Meu mestre, fale que eu escuto.

A voz metálica agora estava mais tranquila e profunda, quase paternal:

— Meu discípulo, precisamos dar glórias ao Rei dos Mestres. A você foi confiada uma missão especial. Hoje é um dia muito abençoado na sua vida. As forças divinas lhe reservaram uma tarefa difícil, mas muito honrosa. Você terá um papel especial na salvação da nossa sagrada jurema. Teremos que seguir o plano divino com muita dedicação.

O discípulo ficou profundamente impactado com aquelas palavras, e percebeu então quão rápida tinha sido sua ascensão: em menos de um mês fora admitido no grupo, tornara-se discípulo e, agora, tinha uma grande missão a cumprir.

E então, ele soube.

Em poucas palavras, ajoelhado na umidade do solo massapê, recebeu as instruções sobre o plano do mestre. Genial, simples e eficaz. Coisas grandiosas estavam para acontecer na cidade de Mangueirinhas. Ele mal podia esperar para começar a agir.

— Está preparado para esse sacrifício?

Ele engoliu em seco, tentando conter a alegria, mas não conseguiu controlar a voz, que saiu embargada:

— Sou um servo, meu mestre. Sempre serei um servo pronto para qualquer missão.

CAPÍTULO 3
Oh! Quantas mães desgraçadas
Choram seus filhos perdidos!
Meu filho, sabes por quê?
Foi porque deram ouvidos
À leve sombra enganosa,
Que dentro d’água se vê!

[…]

A mãe d’água, Gonçalves Dias

Pedro coçou o queixo enquanto observava o reitor da universidade rural espalhar as fotos sobre a mesa. Eram imagens grotescas do corpo de um afogado, encontrado já em estado de decomposição junto à vegetação das margens do rio que cortava o município de Mangueirinhas.

Deu uma cusparada no cinzeiro, livrando-se do Trident que vinha mascando há pelo menos meia hora. Realmente não esperava que no primeiro dia de férias na sua cidade natal, após aquele longo exílio, recebesse um telefonema aflito do amigo acadêmico para conversar sobre um assunto tão indigesto quanto uma morte por afogamento.

— Quem era esse cara? — quis saber, procurando vestígios de feições humanas no rosto todo corroído e deformado pelo inchaço. Reparou na ausência do nariz e das orelhas, que provavelmente já tinham virado refeição dos peixes, assim como várias outras partes do corpo revestido por farrapos do que já fora uma túnica branca.

O reitor Eliseu alinhou os óculos no rosto longilíneo, e explicou:

— O nome dele era Michel Simon. Um boticário francês que morava por aqui há alguns anos, vivendo na antiga casa paroquial do engenho. Havia desaparecido há mais de uma semana e, então, foi encontrado nesse estado na margem do Rio Lindo.

Pedro tateou o bolso à procura de outro chiclete, franzindo a testa:
— Boticário no sentido medicinal? Farmacêutico?

Eliseu deu de ombros:

— Era como ele se autointitulava. Mas não temos notícias de prática de Medicina. Acho que era um tipo de químico ou perfumista à moda antiga. O pároco me informou que ele trabalhava para uma empresa francesa, recebendo a matéria-prima extraída aqui no Brasil, e com ela confeccionava o extrato de novos perfumes numa espécie de ateliê que tinha montado na própria casa paroquial. Então mandava o produto do seu trabalho para essa empresa na França lançar novas essências.

— O cara devia ser muito bom mesmo para que os franceses, mestres na arte dos perfumes, bancassem a estada de um compatriota no outro lado do oceano para criar novas fragrâncias — Pedro observou, puxando uma cadeira para analisar com mais calma as fotos.

Definitivamente, não era uma visão agradável. A pouca pele original que restava no cadáver assumira uma coloração esverdeada e dava a impressão de estar prestes a se dissolver com um simples toque.

O reitor assentiu com a cabeça, e acrescentou:

— O pároco está bastante abatido. Disse que Michel era um homem meio introspectivo, mas, de toda maneira, estava acostumado com sua companhia. Uma alma boa que não fazia mal a ninguém.

Já mastigando um novo chiclete, Pedro cruzou as mãos sobre a mesa, analisando o amigo à sua frente. Eliseu tinha o péssimo hábito de dar muitas voltas antes de entrar no assunto que realmente interessava. Nem mesmo ter assumido o mais importante cargo de gestão da academia onde lecionava o tornara um homem de espírito prático. Resolveu ajudá-lo a objetivar a conversa:

— Onde entro nisso, Eliseu? O xerife desse fim de mundo aqui é meu pai, esqueceu? Eu sou simplesmente um historiador, não mexo com cadáveres.

Eliseu olhou-o com perplexidade, se dando conta de repente de que Pedro nada sabia sobre a nova titular da delegacia da cidade. Mas achou melhor não entrar naquele assunto delicado no momento. Limitou-se a responder à pergunta do amigo:

— Pelo que me consta, você é PHD pela Sorbonne em História e Cultura Popular, e ainda passou os últimos meses fazendo uma especialização em São Paulo sobre folclore nacional, certo?
— Muito bem, é isso mesmo. Vai me contratar para dar alguma palestra na sua universidade?
— Um outro dia, talvez — ele refutou, remexendo nas fotos à procura de alguma outra coisa. — O problema é que, no bolso da calça do defunto, acharam isso aqui.

O professor Eliseu encarava Pedro com gravidade, exibindo a foto de um pente dourado. Pedro fez uma cara confusa, e Eliseu cuidou de esclarecer melhor:
— Isso é um pente de ouro maciço, Pedro. Nele há fios de cabelos longos e compridos enroscados. E, para completar, os pescadores juram que, no dia em que esse pobre francês foi encontrado, avistaram uma silhueta feminina flutuando à distância nas proximidades da outra margem do rio, e uns tantos outros afirmam ter ouvido no mesmo local um canto feminino muito bonito, de entonação hipnótica.

Pedro engoliu em seco:
— A lenda da mãe d’água!

O reitor respirou fundo e assentiu, sério:

— Exatamente, meu amigo. Entendeu agora por que estou pedindo sua ajuda? As pessoas estão muito assustadas com essas circunstâncias estranhas envolvendo a descoberta do corpo desse homem. Como você sabe, histórias de pescador se espalham com a velocidade do vento numa cidade como essa…

— Claro, é de se admirar mesmo. Não há dúvida de que é um assunto muitíssimo interessante, até para um vagabundo de férias como eu! Pensando bem, já estou vendo a minha próxima tese acadêmica se desenhando na mente: “Assombrações do folclore nordestino: um estudo de caso do impacto dos medos atávicos no inconsciente coletivo contemporâneo.” Que tal?

O reitor sorriu timidamente:
— Devo considerar isso um “sim”? Você vai nos ajudar, então?

Pedro descartou o segundo chiclete no cinzeiro e pegou o chapéu panamá que comprara ao chegar a Pernambuco, para se proteger do sol, enfiando-o na cabeça.
— Evidente, meu amigo. E já estou me sentindo o próprio Indiana Jones. Vamos direto à delegacia.

Um Eliseu hesitante seguiu o historiador até o pórtico de saída da reitoria. Mais uma vez não teve coragem de revelar o que o esperava por lá, achando melhor que ele visse com os próprios olhos.

CAPÍTULO 4
O Departamento de Operações Nucleares Experimentais era um dos setores mais estratégicos e reservados da Eletronuclear, uma das empresas que tinha a responsabilidade de produzir eletricidade no Brasil. Para o comando desse departamento, o general Tássio Galvão fora escolhido a dedo: um homem respeitado nas Forças Armadas Brasileiras pela carreira impressionante que construíra nos quadros de inteligência militar. Ao mesmo tempo, era um cientista recluso e aplicado, com alguns estudos publicados em revistas muito respeitadas, o que lhe rendeu reconhecimento na comunidade científica.

Ali, naquele último andar da Eletronuclear, cujo acesso sequer era facultado aos outros engenheiros e cientistas, haviam sido elaborados muitos projetos que afetavam a segurança nacional, como o desenvolvimento da famosa tecnologia nacional de propulsão nuclear de submarinos brasileiros através do enriquecimento de urânio, além de outros projetos ultrassecretos tão ou mais importantes que jamais chegariam ao conhecimento da mídia e da população.

O general Tássio naquele momento olhava a paisagem pela ampla vidraça azulada do prédio-sede da empresa no centro no Rio de Janeiro. Daquela mesma janela havia testemunhado de camarote alguns dos acontecimentos mais importantes do Brasil, como o histórico comício das Diretas Já e a comoção mundial pós-chacina da Candelária. Naquele momento em que o telefone tocou, a atenção do general se voltava para a imponente fachada da Igreja da Candelária, que àquela hora da tarde ficava mais linda com a cúpula reluzindo sob o sol carioca. Como era sua linha segura, reservada apenas para poucas pessoas e chamadas muito importantes, atendeu com o tom de voz baixo, para que não pudesse ser ouvido nem mesmo na sala contígua de seu próprio departamento.

— Tássio Galvão na linha.
— Bom dia, general. — Tássio demorou um pouco para reconhecer a voz da pessoa que se prestava ao papel de informante, pois ela estava ofegante e assustada.
— Você não deve ligar nesses horários em que a empresa está cheia de gente. É muito perigoso. Você também não deve estar falando de uma linha aberta, presumo… Algo urgente?

A voz demorou alguns segundos antes de conseguir coordenar as palavras, que saíram ligeiramente estridentes.

— General, estou numa linha segura. A mercadoria monitorada chegou em Mangueirinhas há alguns dias. São duas caixas. Demorei a informar porque precisava ter certeza, e meus contatos locais não estão muito disponíveis. A cidade está muito agitada.
— Positivo. Bom trabalho. Há algo mais que deseje me relatar? Novas encomendas do material foram feitas pelo alvo?

A voz suspirou do outro lado da linha:

— Sim, há algo que eu preciso relatar, general. É que desejo pedir dispensa dessa missão. A operação de monitoramento acabou aqui.

Tássio apertou o telefone com força e se obrigou a relaxar a mandíbula. Os anos de treino em recrutamento para operações de inteligência prevaleceram sobre a fúria que o militar sentia pelas rupturas em cadeias de comando.

“Calma. Ele é apenas um civil amedrontado.”

— Solicito esclarecimento detalhado sobre esse seu pleito. Não estou entendendo. Você é um dos meus melhores quadros dentre agentes de campo. Estamos nessa missão de monitoramento há alguns meses sem qualquer intercorrência e você vem realizando um excelente trabalho. Houve vazamento? Envolveu-se de algum modo com o alvo?

Embora não pudesse ser visto, o informante balançou freneticamente a cabeça, refutando as perguntas do militar.
— Não, não senhor. O alvo jamais suspeitou. Mas o senhor não precisará mais de missão de monitoramento de entrega de materiais, senhor. Não haverá mais entrega. O alvo está fora de combate.

Tássio entrou em estado de alerta.
— Como assim?

— O alvo está morto, senhor general. Ao que tudo indica, foi assassinado pelos homens-caveira. E posso apostar que essa morte tem tudo a ver com a nossa encomenda.

ANDREA NUNES é promotora de justiça de combate à corrupção em Pernambuco e membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror – Aberst. Publicou os romances policiais O Código Numerati e A corte infiltrada. Em 2014, recebeu a menção honrosa no prêmio Dulce Chacon da APL – melhor escritora nordestina.

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