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Sou arriado...

TEXTO José Cláudio

02 de Abril de 2020

'Peneirando a massa. Casa de Farinha no Rio Madeira'

'Peneirando a massa. Casa de Farinha no Rio Madeira'

Desenho José Cláudio, 1975

Água de coco (Simone de Beauvoir, quando lhe foi apresentada, aqui no Recife, achou “insípida e morna”; Jorge Amado deixou Paris, onde morava, ou tentou morar, porque lá não tinha água de coco). Mel de engenho (um homem, às costas uma cabaça como nunca vi tão grande, na época da moagem dos engenhos, na Ipojuca de antigamente, eu menino, um belo dia, dia de semana, ouvia-se o grito: “Mé novo d’ingenhi!”. A medida era uma concha feita de quenga de coco. Pois não é que, outro belo dia, eu já casado, aqui em Olinda, na casa onde Abel Acioli morava na Rua de São Bento, ouço o mesmo grito! Fui ver: era o mesmo homem com a mesma cabaça e a mesma concha feita de quenga de coco! Pela primeira vez senti a ideia de eternidade. Uma vez, eu com pouco mais de dez anos, interno no Colégio Marista da Rua Conde da Boa Vista, no passeio anual dos internos, fomos passar um dia num engenho, não lembro o nome, em Vitória de Santo Antão. O engenho moendo. Tanto fiz que achei uma torneira de onde saía mel. Um homem arranjou uma caneca de ágata que eu enchi e tomei o mel ainda quente. Vomitei no trem de volta de Vitória até o Recife. Apesar disso, quando me perguntam qual a melhor coisa do mundo, a primeira que me ocorre é mel de engenho. Década de 1950, quando eu trabalhava com Di Cavalcanti, Edifício Três Leões, Avenida São João, São Paulo, “Seu Di”, como aprendi a chamá-lo, quebrou um daqueles silêncios prolongados enquanto pintava com a seguinte história. O sergipano, ajudante de pedreiro, no intervalo do almoço ia a uma barraca e mandava botar 500 réis de “mé”, mel de engenho. Misturava com boa quantidade de farinha e comia. Um dia, ao pedido dos “500 réis de mé”, o barraqueiro encheu um prato fundo até as bordas pensando “quero ver se esse infeliz consegue comer toda essa quantidade de mel”. Não demorou muito, o prato estava vazio. Lambendo os beiços, o sergipano jogou uma moeda de 1 mil réis no balcão. O barraqueiro, com raiva, guardou a moeda e disse: “Tem troco não”. “Me dê de mé”, respondeu o sergipano. Ai como gostaria de ter contado essa história ao pintor Jenner Augusto, “O gênio do Lagarto”, como o chamava Mário Cravo). Suspiro (principalmente uns de dois ou três dedos de diâmetro, ligeiramente morenos, meio achatados, lisos, como os que mamãe e a empregada Maria Jorge faziam em Ipojuca, mas foi mamãe que ensinou a fazer. E guardo na lembrança os que toda tarde, às quatro da tarde, eu, com seis anos, ia comprar na estação de Garanhuns na chegada do trem, 1938. Garanhuns, minha primeira viagem ao “exterior”. Meu pai alugou uma casa e passamos alguns meses. Me lembro do parque dos eucaliptos, onde a ema, bicho que vi pela primeira vez, tirou o chapéu de meu pai, perto da Rua Joaquim Távora; me lembro da feira, imensa em comparação à de Ipojuca; de uma fila de cobrinhas corais que apareceram no canto da parede da cozinha dessa casa, motivo de nos mudarmos para a Rua 15 de Novembro; da primeira vez que fui ao cinema e vi desenho animado; da calçada larga do Colégio Santa Sofia; de mamãe tomando toda manhã um copo de azeite doce, minha tia Maria José animando-a; de Vovô Pedro, pai de papai, tendo ido conosco como o dono da casa, que toda casa tinha de ter um homem: se o passado voltasse e Fernando Dourado fosse prefeito, eu ia morar lá, andar na feira, se é que ainda existe. Em espanhol, suspiro é merengue, motivo de chamarem por esse nome o Real Madrid, que usa camisa branca.

Mas gosto também depende das circunstâncias (já, já li Ortega y Gasset: uma excelente vida de Velázquez, muito esclarecedora tanto da vida do pintor como dos rumos da pintura da Europa e logo do Ocidente, e um estudo sobre o amor, onde ele diz que a palavra “amor” foi tirada do etrusco e ninguém até hoje sabe o que significa). Maurício, casado com minha prima Jacira, filha da Maria José de que falo mais acima quando tratava de Garanhuns, nunca tinha gostado de farinha enquanto vivia aqui no Recife. Foi estudar nos Estados Unidos e depois de uns tempos ficou doido para comer farinha. Por falar em farinha, Toinho, pai de Ricardo marido de minha neta Emília, deve achar farinha uma das melhores coisas do mundo. E é. Nunca vou esquecer da farinha de paneiro, em Manaus, que trazia umas raspas de mandioca: misturada com o caldo do peixe cozido com muita água, “peixe na água grande”, como dizem no Ceará. Segundo Toinho, a melhor farinha do Brasil é a de Cruzeiro do Acre, de que ele tem fornecedor, e tem até me mandado. É perfeita, meio grossa, como prefiro, principalmente para botar num caldo na mesa, de peixe, de guisado de galinha, de cabidela, de pato no tucupi. Ou farofa matuta, ou de bolão, como também é chamada, para comer com o que você imaginar, charque, bacalhau assado na brasa. Bacalhau assado na brasa dizem que é bom com farinha mole, que comem nas casas de farinha, antes de a farinha estar completamente cozida. Mas nunca comi, embora insistisse, na casa de farinha de meu avô Pedro Taveira, mas ele não deixava porque, dizia, dava dor de barriga. E tem o capítulo à parte dos beijus, sendo um dos melhores o feito debaixo da farinha, jogando-se a farinha, enquanto cozinha, por cima dele. A mulher do escultor cearense do Crato Sérvulo Esmeraldo, Dôdôra, de Feijó, Acre, disse que todo dia vai um avião de Cruzeiro do Sul carregando farinha para Rio Branco. Aqui em Pernambuco há sempre algumas farinhas famosas, como as de Vitória de Santo Antão e Lajedo. Também designa sujeito que não presta: “farinha ruim” ou “farinha do mesmo saco”.

Ao começar esta croniquinha pensava em comentar as melhores coisas do mundo, ou ao menos citar um bocado delas. Mas mal deu para falar de quatro: água de coco, suspiro, mel de engenho e farinha. Pretendo voltar ao assunto.

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