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Mirante

O que fizeram com as mulheres em GoT?

TEXTO Débora Nascimento

16 de Maio de 2019

As personagens Brienne, Missandei, Sansa, Cersei, Daenarys, Arya, Ygritte e Melisandre

As personagens Brienne, Missandei, Sansa, Cersei, Daenarys, Arya, Ygritte e Melisandre

Imagem Montagem a partir de fotos de divulgação

Dragões, zumbis, incesto, violência extrema e cenas gratuitas de nudez feminina. Alguns dos elementos característicos de Game of thrones ou incomodavam (na reta final, já podemos usar o verbo no passado), ou atraíam perfis diferentes de público. Apesar deles ou por causa deles, milhões de espectadores ao redor do mundo acompanharam a série. Desde que uma criança foi surpreendentemente empurrada da janela de um castelo, cada final de episódio despertava na plateia uma enorme curiosidade sobre o desfecho da trama no próximo episódio, chegando ao ponto em que ficou muito difícil parar de ver GoT.

Em meio a sexo, dragões e white walkers, paulatinamente a série foi mostrando que as mulheres não seriam apenas objetos sexuais nas mãos de homens misóginos. Com o desenrolar da história, foi ficando claro que a tal guerra pelo Trono de Ferro seria protagonizada por elas. Esse destaque nos papéis femininos teve início após três mortes significativas (de homens): a de Ned Stark (Mão do Rei Robert Baratheon), impulsionando sua esposa e filhas a tomarem rumos diferentes em suas vidas; a do rei Robert Baratheon, fato que conduziu sua esposa Cersei Lannister a assumir o reinado, e a do líder dos Dothrakis, Khal Drogo, que compeliu sua viúva, Daenerys Targaryen, a retomar a longa jornada para reinar em Westeros, que havia sido governado anteriormente por seu pai, Aerys Targaryen, o Rei Louco, morto pelo irmão de Cersei, Jaime Lannister.

A transformação de Daenerys é o ponto de virada de Game of thrones, que, de uma história exploradora da misoginia e do sadismo, passou a fortalecer figuras femininas que estavam à mercê da vontade dos homens. Adolescente órfã e ingênua, Daenerys foi vendida, ainda menor de idade, pelo irmão Viserys Targaryen a um nômade desconhecido, Khal Drogo, o líder dos guerreiros Dothrakis, para que ela virasse sua esposa (algo que está longe de ocorrer apenas na ficção). Logo cedo, ela percebeu que precisava encontrar uma forma de reverter o curso que sua vida estava tomando.

Sabia que só teria chances de sobreviver se conquistasse o respeito e a admiração daquele povo e de seu “dono”. E isso só poderia acontecer se ela, um membro da nobreza, começasse a entender a cultura e as motivações daqueles brutos. O primeiro passo nessa direção seria aprender a falar a língua dothraki. Enquanto acontecia esse processo de aprendizado, ela, orientada por uma mulher mais velha, procurava manter contato visual com o marido ao ser usada sexualmente, para tentar despertar nele, ao menos, um mínimo de afeto e humanidade. Sua sobrevivência dependia de estabelecer uma comunicação com o agressor, como uma forma racional da Síndrome de Estocolmo.

Paralelamente ao desenvolvimento de Daenerys como uma sobrevivente de violência doméstica, outras personagens também enfrentavam maus bocados, como Sansa Stark. A ambiciosa patricinha, que sonhava em ser rainha dos Sete Reinos, se deu mal em seu sonho grandioso. Foi obrigada a casar-se com Tyrion Lannister, tio do rei Joffrey Baratheon. Depois de fugir de Winterfell, enfrentou um casamento abusivo com Ramsay Bolton, que a estuprou diversas vezes. Para se vingar, fez justiça com suas próprias mãos, literalmente soltando os cachorros (no caso, as cadelas) em cima de Ramsay, que disputou com Joffrey o título de pior vilão de Game of thrones.

No quarto episódio da última temporada, Sansa deixa a entender, numa conversa com Sandor Clegane (The Hound), que só amadureceu por conta da violência que passou. Como, desde a sexta temporada, Game of thrones não está mais no território dos livros de George R.R. Martin, o roteiro perdeu boa parte de sua complexidade e de seu vigor. Os diálogos inteligentes e espirituosos ficaram mais restritos às primeiras temporadas. A frase de Sansa vinculou o seu amadurecimento à experiência cruel de ter sido estuprada (o que pode colaborar perigosamente com a teoria misógina e bizarra do “estupro corretivo”). Essa lógica equivocada partiu de homens, os roteiristas David Benioff e D.B. Weiss, responsáveis por caprichar na violência contra as mulheres: nos livros, Sansa, por exemplo, não foi estuprada. E até George R.R. Martin revelou que ficou chocado com a cena do Casamento Vermelho, que mais parecia uma reconstituição da chacina promovida pela Família Manson em Los Angeles, no ano de 1969.

O que os roteiristas poderiam ter deixado claro é que o amadurecimento de Sansa foi apressado devido à experiência traumática do estupro e à situação dramática de ter que sobreviver sozinha, sem saber até então do paradeiro dos irmãos Arya, Bran e Jon Snow. A frase infeliz evidencia o que a comediante e roteirista Tina Fey defende: é preciso haver mais diversidade na função de roteirista. A presença dela na equipe de roteiristas do Saturday Night Live fez total diferença para a inserção de esquetes que abrangessem o universo feminino e não apenas uma visão masculina de mundo.

A presença ínfima de mulheres como roteiristas tem impacto direto tanto na qualidade dos papéis femininos como na quantidade deles. De acordo com um estudo da San Diego State University, dos 100 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos em 2018, elas representaram 31% dos protagonistas. A boa notícia é que houve um aumento de sete pontos com relação a 2017 e de dois pontos, se considerarmos 2016. O índice diminui quando o gênero envolve ação e aventura. Mas talvez esses números tendam a crescer, após ser identificado que, entre 2014 e 2017, filmes protagonizados por mulheres tiveram um público maior que os estrelados por homens.

A bilheteria vinculada a gênero segue a mesma lógica do faroeste. A maioria das mulheres não gostava de “filmes de bang-bang” simplesmente porque não se via representada neles. E quando havia um papel de destaque, Hollywood encontrava uma forma de tentar diminuir a importância da presença feminina. É o caso ultrajante do filme Johnny Guitar. O clássico do faroeste protagonizado por uma mulher, Joan Crawford, recebeu no título o nome de um homem – por causa de um personagem secundário, um violonista aventureiro.

Irmã de Sansa, Arya Stark, talvez a personagem feminina mais querida da série (em apenas um ano, 2018, 2.545 crianças nascidas nos Estados Unidos foram batizadas com seu nome), é uma espécie de Peggy Olson de Game of thrones. Começou na primeira temporada como uma garota ingênua, mas, sozinha no mundo, like a rolling stone, precisou aprender a lutar para não somente se defender, mas se vingar dos que mataram seus pais, Ned e Catelyn Stark, morta no Casamento Vermelho.

Arya sabia que o aprendizado seria árduo. Mas sua determinação era maior do que o desafio. No “intensivão”, que recebeu do mestre Jaqen H'ghar, aprendeu que, para adentrar em ambientes inóspitos, precisaria não chamar a atenção. Antes uma criança indefesa, Arya, na última temporada, conquistou o respeito do Exército do Norte, ao ser a figura determinante na luta contra os white walkers.

Depois de se tornar uma guerreira exemplar, rejeitou o papel de lady, ao ser pedida em casamento pelo homem que ela escolheu para fazer sexo. Arya, no entanto, passou a ser respeitada também porque se transformou em um “lobo solitário”, inclusive vestindo roupas masculinas. E aqui cabe uma observação: nas últimas temporadas, o figurino das principais personagens perdeu traços femininos, ficando mais sóbrio e masculinizado. Talvez isso não tivesse somente a ver com o inverno que estava chegando.

Masculinizar-se nos trajes foi algo apontado por Chimamanda Ngozi Adichie como um truque usado pelas mulheres em um ambiente dominado por homens, para conseguir respeito e não despertar o desejo masculino. A escritora nigeriana lamentou que tenha abusado desse subterfúgio quando entrou na universidade, vestindo terninhos, quando, na realidade, queria usar roupas femininas, floridas, coloridas, vestidos, saias. Chimamanda afirmou que nunca mais fará isso, masculinizar-se para tentar conquistar respeito.

Embora as mulheres já tivessem conquistado seu espaço nas séries de TV nos anos 1960, elas ainda assumiam papéis moldados à sua época, como as donas de casa que viviam para servir a seus maridos, em A Feiticeira e Jeannie é um gênio. Na década de 1970, o destaque eram As Panteras, que estavam a serviço de Charlie Townsend, e A Mulher-Maravilha, que só ganhou o espaço nobre do cinema em 2017. Nos anos 1980, as mulheres que se sobressaíam dividiam o protagonismo com homens, como Jennifer Hart, do Casal 20, e Maddie Hayes, de A gata e o rato. A partir dos anos 2000, capitaneada por Sex and the city, aconteceu uma virada nos papéis femininos nas séries e, desde então, a mulher ganhou, na TV, abordagens diversas e mais complexas, como em Desperate housewives, Girls, Orange is the new black, Veep, Parks and recreation, The handmaid's tale, Grace and Frankie, Jessica Jones...

Inspirada na Idade Média e na Guerra das Rosas, que aconteceu na Inglaterra entre 1455 e 1485, Game of thrones subverteu, de forma indiscutível, o papel da mulher nos gêneros aventura e fantasia. No entanto, com exceção de personagens secundárias marcantes como Brienne of Tarth, Olenna Tyrell, Ygritte, Yara Greyjoy, a garota-prodígio Lyanna Mormont (que morreu matando o gigante zumbi na última temporada), Missandei (a única mulher negra da trama), as figuras que mais se destacam têm um componente ambíguo ou perverso, como Ellaria Sand (mãe das quatro Serpentes da Areia, de Dorne); Cersei, a Rainha Má; a feiticeira Melisandre; a ambiciosa Margaery Tyrell. E agora Daenerys Targaryen.

Na reta final da série, a heroína abruptamente passa a ganhar, com a mão pesada dos roteiristas, um aspecto sombrio. Querem transformá-la numa rainha insana e impiedosa, que pretende governar através do medo. E que, no penúltimo episódio, surtou após ficar decepcionada com seus apoiadores e ser rejeitada pelo homem que deseja (“mal-amada”, diriam os machistas). Herdeira natural ao trono durante toda a série, perto do confronto definitivo, ela descobriu que existe um sucessor inegável, Jon Snow, um dos personagens mais queridos da série, junto com Tyrion Lannister.

O último episódio transfigurou Daenerys numa louca – os mesmos machistas diriam que “estava de TPM” ou “histérica”. Quem não se lembra da capa da IstoÉ, publicada em 6 de abril de 2016, uma semana antes da votação do parecer do impeachment de Dilma Rousseff? A chamada estampava: “As explosões nervosas da presidente”. Ao lado, o rosto dela numa manipulada expressão facial, a partir de uma foto, como se estivesse gritando. Transformaram a Primeira Mulher a Ocupar a Casa Civil, o Braço Direito do Governo Lula, a Mãe do PAC, a Legítima Defensora da Democracia, em uma Rainha Louca.

Não sabemos ainda se vai ter golpe ou não em Game of thrones, mas, por enquanto, o certo é que o empoderamento feminino na mais premiada série dramática da história pode prestar um grande desserviço às mulheres, ao modificar uma heroína, digna de virar símbolo para milhões de garotas mundo afora, numa repentina vilã destemperada. No penúltimo episódio, em algum momento, Daenerys Targaryen, a Primeira de Seu Nome, Nascida da Tormenta, A Não-Queimada, Mãe dos Dragões, Quebradora das Correntes, Mãe dos Escravos, Khaleesi dos Dothraki, Protetora dos Sete Reinos, Legítima Herdeira do Trono de Ferro, Rainha de Mereen, dos Ândalos e dos Primeiros Homens, Senhora dos Sete Reinos, ou simplesmente Dany, para os íntimos, foi transformada em um Wilson Witzel montado num dragão mandando fogo sobre os pobres.

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