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"Luciana, a comerciária" chega aos cinemas 50 anos depois

Dirigido por Mozart Cintra em 1976, o longa-metragem pernambucano, que narra o êxodo rural de uma jovem ao Recife, será exibido no Cinema da Fundação em duas sessões no dia 20 de setembro

TEXTO Laura Machado

02 de Setembro de 2026

A atriz Kátia Brígida em cena do filme

A atriz Kátia Brígida em cena do filme "Luciana, a comerciária"

Foto Divulgação

No dia 20 de setembro, o Cinema da Fundação Joaquim Nabuco realizará duas sessões especiais do longa-metragem Luciana, a comerciária, dirigido pelo ator e produtor Mozart Cintra em 1976. Inédito no circuito comercial, o filme foi guardado pela família por meio século e representa um capítulo importante na historiografia do cinema pernambucano. As sessões são totalmente gratuitas e acontecerão às 16h e 18h30.

Com cerca de 1h20 de duração, o filme conta a história de Luciana, uma jovem de 20 e poucos anos que se despede dos pais e namorado e deixa a cidade de Pedra, no Agreste (240 km de Recife), para viver na capital pernambucana. Ingênua e sem conhecimento dos costumes de uma cidade grande, ela busca se adequar à nova realidade a fim de alcançar os próprios objetivos e conquistar uma vida melhor do que a experienciada na infância.  

Mozart Cintra, assim como a personagem de seu filme, é natural da cidade de Pedra. Nas décadas de 1950 e 1960, viveu no Rio de Janeiro e atuou em filmes como Rio, Zona Norte, Mandacaru vermelho e Um candango na Belacap. Ao retornar para o Recife e casar-se com Celeida Sette Cintra, a dupla cria a produtora C. Sette Cintra Filmes e através dela produzem Luciana, a comerciária, que conta com performances musicais de Celeida. 

Ao finalizar o filme, Mozart conseguiu realizar sua exibição apenas em três ocasiões: uma vez na cabine de imprensa do Cinema São Luiz, no Recife; no extinto Cine Bandeirante, em Arcoverde, e, por fim, no também extinto Cine Bairro Novo, em São Lourenço da Mata. 

De acordo com o coordenador do Cinema da Fundação, Luiz Joaquim, “o filme tem sua fotografia em preto e branco, uma escolha estética bastante incomum e rejeitada pelos exibidores em 1976, o que talvez ajude a explicar as barreiras para o seu lançamento oficial na época”. 

Naquele mesmo ano, insatisfeito pela escassa visibilidade de sua obra, Mozart Cintra faleceu. Durante anos, sua esposa Celeida guardou a única cópia positiva do longa-metragem em casa e compartilhou com toda a família o desejo de assistir a Luciana, a comerciária mais uma vez. 

Em 2003, a viúva fez contato com Luiz Joaquim pela primeira vez. Ela levou o filme até ele e perguntou se era possível assisti-lo, porém, a cópia já estava muito danificada e apenas 15 minutos estavam preservados o suficiente para serem exibidos. Desde então, Luiz manteve a obra em sua mente e, com a ajuda do pesquisador e técnico restaurador Caio Ramon, da Cinemateca Brasileira, que localizou e realizou um novo laudo sobre a película original do filme, foi, enfim, capaz de assistir à obra. 

“O enredo ilustra uma história comum e valiosa do êxodo urbano e do cotidiano recifense na década de 1970. Sob esta perspectiva, considero que se o filme tivesse circulado na época, suas referências de figurino e direção de arte certamente teriam influenciado produções subsequentes. Vejo Luciana, a comerciária como um filho tardio do Cinema Marginal, gênero que contou com fortes mobilizações em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador entre 1967 e 1974”, elucida Luiz Joaquim. 

As duas sessões a serem promovidas pelo Cinema da Fundação na sala do Derby são descritas pelo coordenador como “as mais importantes do ano” e estão sendo viabilizadas pela Cinemateca Brasileira, que realizou a digitalização do filme e, durante a sessão das 16h, exibe-o simultaneamente na mostra “50 anos depois - 1976”. 

Celeida faleceu em 2026, aos 95 anos, e não chegou a assistir ao filme que ajudou a produzir com o marido, mas o evento, enfim, permitirá que toda sua família e amigos possam assistir ao projeto, assim como estudiosos e pesquisadores do cinema. 

“A partir dessa estreia, os pesquisadores talvez possam identificá-lo como o último suspiro do Cinema Marginal brasileira”, explica Luiz Joaquim, que espera que essa exibição seja apenas o começo da trajetória de Luciana, a comerciária no circuito de exibições. 

Para Veruschka Cintra, filha de Mozart e Celeida, a exibição da obra é uma maneira de relembrar o trabalho e parceria dos pais. “A família não acreditava mais, só que houve essa maravilhosa oportunidade e foi uma comoção geral, todos estão muito ansiosos para ver: tios, primos, meus filhos que não eram nascidos. Era uma coisa que estava adormecida, mas queremos que o nome dele e da minha mãe tenham reconhecimento”, explicou. 

Quando o filme foi rodado, Veruschka tinha cerca de 11 anos e chegou a fazer uma participação no longa-metragem. A vontade de imortalizar a imagem da filha em seu único filme demonstra o carinho e cuidado de Mozart e Celeida. 

Sobre sua relação com o pai, ela contou: “ele era um amigão, tínhamos a maior cumplicidade de pai e filha, sabe? Me deixava livre mas dizia que estava aqui para me apoiar, isso marcou muito”.

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